Sol em Escorpião – 24 de Outubro a 23 de Novembro

Não me solta, vamo dar volta

Eu não tenho mais memória do silêncio na minha mente.
Qualquer resposta agora vai ter de surgir do ruído
Das barras douradas da gaiola que habito
Rangendo contra os meus dentes, corroendo minha boca
Num beijo ácido, ácido, ácido.

O sol me aquece a cara, morde minhas costas, lisérgico
Abro o olho no meio da dança só pra ver pra ver tudo rodar
E a delícia de lamber a lua, nadar na chuva
Morder a armadilha que você montou pra mim
Morder sua virilha pra você ficar esperto
Já tô ficando tonto com tanta volta no caminho
Chega dessa bobagem e escuta meu soneto:

Não me importa se você discorda do que eu to falando
Não tenho tempo pra te explicar minha situação
Mas te falando com todo o meu respeito
É muito fácil concordar com a própria opinião.

caralho maluco boto fé

Sol em Libra – 23 de Setembro a 23 de Outubro

Acaba mais uma estação, e eu não sei bem o que dizer sobre isso; então a partir de agora só vou me comunicar através de absurdos. Têm dias que é um passo pra frente e dois pra trás, nada contra mas eu odeio. Tem dia que são dois pra lá dois pra cá, e eu me embriagando de um uísque com guaraná. Esse são mais legais, apesar de que se embriagar é um caminho sem volta. Ou melhor, geralmente tem volta, mas é uma volta por cima, tem que contornar todo o caminho pra voltar de onde veio, e enquanto você não volta tudo fica turvo, é como se uma névoa grossa tomasse conta da vida… complicado, bicha. Pois sim, nos vens e vais acho que o mais importante é se cuidar pra não vires mais do que vais, mas se quiseres virdes também fica à vontades; quem sou eu pra te impedires?

Quisera eu poder impedir alguma coisa, quisera eu! Se pudesse impedia a humanidade de ter existido. Não me leva a mal não, não tenho nada contra você, mas se pudesse escolher teriam sido os sapos a dominar o mundo, são bem mais interessantes que os humanos. O problema é que os sapos tem uma resistência péssima pra climas secos: os bicho conseguem viver 3, 4 meses congelados mas não aguentam cinco minutos sem água.. paciência, né?, a humanidade até que é simpática às vezes, podia ser bem pior.

Fico feliz que a primavera chegou, me sinto à vontade sem dever nada pra ninguém. Tem sol, tá tudo mais leve, mais quente, mais macio, coisa boa. Mas também tem frio, tem chuva, tem lama; mas lama é bom, por que sapo gosta de lama, e apesar de ser suja e fedida é cheia de nutrientes. Tô contente, tava cansado do inverno, com todo o respeito, sei que é importante mas é muito frio; foi legal pra fazer a linha instrospectiva e tudo mais mas eu já queria sair daquele buraco. Tô querendo dar uma renovada na vida, trocar as cores, as estampas.. inventar umas coisa nova quem sabes, e eu sabia que a primavera iria me trazer esses novos ares (por que eu vejo o futuro). É alegria, espontaneidade, fertilidade.

Fico pensando que a fertilidade venha de acumular coisas mortas, deixar com que elas apodreçam entre as dobras dos tecidos, colher mudas por onde passar e deixar que o vento traga sementes. Viver é um processo de morrer, já falei disso aqui antes. Morrer é um processo de olhar pro passado e ver que ele não existe mais no futuro. Passado é um processo de deixar passar, e futuro é um processo de olhar e ver o que ainda não passou. Passarão, passarinho.

Passa em casa qualquer dia desses, tem muitos sapos na vizinhança.

Sol em Virgem – 24 de Agosto a 23 de Setembro

Às vezes, quando eu perco meu centro, eu demoro muito pra o reencontrar. Primeiro tem todo o processo de perceber que eu me perdi: eu realmente não tô mais no controle e não sei aonde vou parar se eu continuar assim. Depois tem todo o caminho de descer até o fundo do poço, por que uma vez que eu já perdi o controle, é pra lá que eu vou mesmo. Geralmente essa é a parte mais pacífica do processo, em que eu só deixo as pecinhas do dominó caírem enquanto eu observo e tento entender o movimento. Por ultimo vem a retomada, em que eu identifico o que eu tô fazendo de errado e inicio o lento processo de mudar meu comportamento. O engraçado é geralmente perceber, quando eu volto pro meu centro, que eu não estava tão longe dele assim. Minhas raízes são muito mais fundas do que parecem.

É engraçado porque no meio do turbilhão parece que eu não sei o que fazer ou quem eu sou, dependendo da gravidade da situação. Mas tudo isso é parte da grande ilusão de que eu sou alguma coisa definitiva, quando na verdade eu sou orgânico e mutável, como a árvore, a alga, o musgo e, por que não, o mofo. A vida se expressa de infinitas formas e o que nos cabe é vivenciar tudo isso, apreciar se possível. Encontrar a paz é quase como deixar o processo de mutação terminar por conta própria.

O que não significa que eu tenha encontrado a paz, no máximo uma placa me apontando a direção. Tem sido um ano bem louco pra mim.. muito estresse e revolta, mas nem por isso eu não estou feliz por estar vivo, inclusive tenho feito por mim como nunca antes. Acho que aos poucos to dissolvendo uma necessidade que eu tinha de ser a luz do ambiente, essa pressão por ter pensamentos positivos e vibrar no amor que a internet holística promove. Que tipo de peixe abissal eu teria que ser pra irradiar luz depois de passar nove horas num cubo que não tem uma janela sequer? O meio é importante e decisivo nas minhas emoções sim.

Uma pena que cedo ou tarde eu vá ter que encontrar meus demônios, então toda essa energia negativa vai voltar pra me cobrar; mas antes uma energia negativa assumida e confiante do que fantasiada de boas intenções, do que a pressão pra ser bom, melhor que todos. Pelo menos é meu.

De frente com alguém, ainda não tá claro quem, mas definitivamente de frente.

Verdade é que eu sempre quis ser famosa, mas as circunstâncias da vida me forçaram a ser humilde; e não é por que humildade é uma grande virtude, mas é que quando você não é uma celebridade raramente as pessoas vão se interessar pela sua vida; e se você for uma pessoa convencida, que fala aos quatro cantos o quanto você é bom, as pessoas se interessam menos ainda, por que você excluiu o fator do mistério e da dúvida, já falou tudo que tinha pra falar. E o que torna uma pessoa verdadeiramente famosa? Entrevistas! Tapete Vermelho não é sinal de fama, roupa de marca muito menos; você sabe que a pessoa é realmente famosa quando param pra perguntar o que ela gosta de fazer no tempo livre, se ela come caruru, vatapá..

aaaaaaaaaaaaadriana limammmmmmmmmmmm

Verdade então é que eu sempre quis ser famosa, me tornei humilde por falta de opção, mas tô cansado de esperar a fama chegar pra começar a dar entrevistas, além de que nem sei mais se o planeta vai durar isso tudo. Pois então, nesse desejo palpitante de dar logo uma entrevista decidi não esperar a entrevista vir até mim, me entrevistar eu mesmo. E daí? O blog é meu!

Então eu convidei alguns amigos meus pra me fazerem perguntas (por que também achei que eu mesmo fazer perguntas pra mim seria passar do ponto), eles fizeram então sem mais enrolação:

De quantas formas diferentes você se vê matando o design gráfico? Ou quantas vezes na semana você odeia design gráfico e gostaria de matá-lo?

Veja bem, eu amo design gráfico. Não somente por ser uma ferramenta de comunicação eficiente e criativa, mas também por que é com isso que eu ganho dinheiro. Principalmente por conta do dinheiro. Dito isso eu tenho sim um desejo diário de matar o design gráfico, toda vez que eu sou obrigado a fazer-lo, ou seja, de segunda a sexta, e nos domingos por antecipação.

Honestamente eu mataria todo o design gráfico dos últimos onze anos pra cá, com algumas exceções; desde a web 2.0 e os pôsters vintage. O behance por mim queimava inteiro. Matava também os anos de ouro do design clássico, Bauhaus, modernismo e o escambau.. bando de europeu chato do caralho. Por mim deixava só o design arregaçado de quando descobriram os efeitos do Photoshop, e fazer design era botar um clipart em cima do outro, palavras escritas com fogo, montagens.. A revista era A BELEZA DO FUTURO e a capa era um robô passando batom. Um design leve, de tempos mais simples.

evidência 1

Você é uma pessoa que calça a) meia meia tênis tênis ou b) meia tênis meia tênis?

Eu costumava calçar meia tênis meia tênis, por que eu me confundo muito qual lado é qual, e daí quando eu eventualmente percebesse que calcei o pé de meia errado já seria tarde demais, por que eu já calcei um tênis, e eu saia com a meia trocada mesmo por que no fim das contas não faz a menor diferença. Só que quando que eu comecei a morar sozinho, eu fui estudar o feng shui e instaurei uma política de não entrar em casa com sapato, por causo das energias. Diz o feng shui que quando você anda de sapato dentro de casa você espalha pelo seu espaço a energia da rua, a energia dos pombo, do entregador de panfleto, da sua colega que tem gastrite e da menina bêbada que te pediu um cigarro e acendeu o filtro.. Então não é recomendado.

Por conta disso do feng shui eu me acostumei a calçar a meia quando eu saio do banho, e o tênis só quando eu saio de casa. Por outro lado a pira do feng shui meio que passou, visto que eu agora largo a bolsa em qualquer canto da casa, durmo virado pra porta e criei um hobby de colecionar objetos amaldiçoados; mas o esquema do sapato eu mantive.

Um medo?

Eu tenho muito medo dos espíritos que estão presos na minha coleção de objetos amaldiçoados. Mas ai, eles são tão charmosos.. de vez em quando eu passo por um colar em um brechó, aí ele sussurra meu nome bem baixinho, elogia meu cabelo, me oferece desejos, poder.. aieee não resisto.

Às vezes eu entro no quarto e têm três demônios escondidos em baixo da minha cama esperando eu me deitar pra possuir meu corpo e dilacerar minha carne, mas daí eu acordo suando frio e era só um pesadelo que eles criaram pra se alimentar do meu desespero.. sabe? São essas pequenas coisas que quebram a rotina e fazem valer à pena. Defeito todo mundo tem.

Como você acha que teria sido a sua jornada sexual se você nunca tivesse saído de Goiânia?

Eu que já perco horas inventando jornadas sexuais fictícias agora posso fazer toda uma fic sob encomenda, que delícia? Precisei parar alguns dias pra pensar por que essa pergunta abre todo um prisma em cima da minha trajetória de vida. Eu explico: a impossibilidade de transar se eu morasse na casa dos meus pais foi talvez o que mais me motivou a sair de Goiânia. Minto, foi definitivamente o que mais me motivou a sair de Goiânia. Não que papai e mamãe não fossem abertos com a gente em relação a sexo, mas é que eles moram aonde judas perdeu as botas e são o tipo de pessoa que, se eu levasse alguém pra casa, já iam tratar como novo genro; e quando se fala da vida sexual do homem gay contemporâneo não é o tipo de esforço que a classe está disposta a passar. Então acho que antes de mais nada posso dizer que minha jornada sexual seria escassa.

Eu duvido que eu aguentasse os hormônios por muito tempo, talvez eu frequentasse muito os eventos de design e festas da faculdade? Quem sabe eu virasse adepto do cruising? Acho difícil, mas não duvido de nada. O mais provável é que eu me envolvesse profundamente com o primeiro homem que morasse sozinho e me desse moral, e o mais provável é que esse homem fosse um lixo. Eu sei que eu já tinha me decidido a sair do armário no fim do ensino médio, então eu ainda daria um jeito de me envolver em uma série de namoros rápidos e decepcionantes pra destruir meu psicológico e decepcionar minha família. Isso é algo que tá no meu karma.

Digamos que você fosse um personagem de um jogo, qual pessoa do mundo você gostaria que estivesse controlando as suas decisões?

Eu amei essa pergunta. A complexidade, as camadas.. não basta escolher por exemplo, alguém responsável, ambicioso, por que nos jogos você não faz o que você faz na vida real; inclusive você faz o contrário, a pessoa que é responsável na vida, uma empreendedora de sucesso, é justamente aquela que no the sims faz uma família de vampiros, que tem um guaxinim e uma casa com cinco piscinas e nenhum banheiro. O que é exatamente o que eu gostaria que acontecesse comigo se eu fosse um personagem de um jogo.

Então eu acho que escolheria a Nicole Kidman. Por que a Nicole Kidman? Por que eu acho que ela faria esse tipo de coisa; ela é linda, super competente, podre de rica e com um certo brilho no olhar de quem esconde pensamentos agressivos. Exatamente o tipo de pessoa que desconta tudo no vídeo game e não tem o menor escrúpulo. Eu confio que com a Nicole Kidman no comando minha vida seria uma vida rápida, intensa e memorável; e que um dia eu acordaria em um quarto sem portas, com uma lareira acesa e muitos móveis de madeira. Você também já viu o vídeo dela comendo insetos e sabe do que ela é capaz.

a Nicole vendo meu corpo virtual em chamas

Ok, agora eu preciso falar SÉRIO.

Recentemente eu descobri o genial Respondendo em voz alta, um podcast muito engraçado em que a @laurinhalero responde perguntas que as pessoas enviam; e ela faz disso um formato incrível e muito divertido, contornando as perguntas pra falar a mais pura e completa abobrinha. É INCRÍVEL AMIGA!!! A vontade de fazer esse post veio justamente de ouvir o programa dela e ficar inspirado do quanto ela se diverte fazendo isso, e visto que eu não devo nada pra ninguém eu imitei sim. Se você chegou até aqui, vai ouvir que você só tem a ganhar.

E se você chegou até aqui… UAU! É bom saber que eu posso contar com você. Saiu um pouco do meu controle, mas eu só queria brincar, testar minha criatividade e, por que não, roubar a arte de alguém. Copiar mesmo. Isso me faz um artista de merda? Honestamente eu nem me importo mais a esse ponto. Euzinho fico por aqui, já me diverti, escrevi demais e tanto eu quanto você temos mais o que fazer.

Luan e Bruno, que me mandaram as perguntas, obrigado por me permitirem viver esse sonho e contem comigo sempre que precisarem fazer algo improdutivo.

eu dão consigo respirar

De repente o cenário começa a se desfazer. A grama, alta e iluminada apenas pela lua, dá espaço a um cenário familiar e menos fantástico, um quarto. Você quer ficar, sentir a brisa do campo, mas o campo não existe mais. Com os olhos semi abertos você vê o sono se levantar do seu lado, ele sai do quarto, caminha até a janela aberta e num salto vai embora, noite à dentro. Você tenta falar alguma coisa, pedir pra o sono ficar, mas não tem voz. Inclusive, você não consegue nem respirar.

E aqui está você, acordado de madrugada, largado na cama, resfriado, com o nariz completamente entupido e a garganta seca.

Você faz força pra puxar o ar, mas seu pulmão tá cheio de britas e sua garganta cheia de areia. Alcançando o copo de água no criado mudo ao lado, você toma um gole pra ver se melhora, e sua garganta dói um pouco menos. Você toma o copo inteiro. Ainda dói, mas você consegue tragar ar. Você tenta dormir, mas tudo que consegue é ficar estatelado na cama, respirando pela boca. O sono te abandonou.

Então você decide ir até a cozinha e fazer um chá de camomila; por que chá é bom pro resfriado e a camomila ajuda a dormir. Você também gosta dessa coisa mais natural, de lidar com seus problemas na base de chá, alimentação, e uma boa noite de sono. Sabe, igual as pessoas orgânicas fazem? Triste fim, o chá só te esquenta, respirar ainda dói e o sono continua foragido. Você olha pra cama e pro travesseiro e não sente o menor tesão neles. Se alguma coisa eles te provocam raiva.

Daí você se lembra que alguma vez alguém te disse que o vapor de água quente é bom pra decongestionar e abrir as vias respiratórias. Parece científico, parece verídico, e honestamente, no seu estado atual você tentaria qualquer coisa agora. E lá vai você pro banho; sem ligar a luz, por que ligar a luz seria assumir que você está acordado, e você se recusa a fazer isso. A água está quente; mesmo na luz fraca da rua é possível ver o vapor subindo, mas não é o suficiente. Você quer mais vapor, então gira o controle pra a água sair ainda mais quente; agora mais do que você gostaria pra um banho comum, mas nada disso importa. Você quer mais vapor!

A água cai no seu peito, depois nas suas costas, depois de novo no peito; quando um lado não aguenta mais o calor você gira e insiste, pra abrir os alveólos do seu pulmão a qualquer custo! Nada. Você NÃO AGUENTA MAIS, está cansado do calor, cansado de não respirar e de estar acordado resolvendo problemas fisiológicos. Quem seu corpo acha que é pra parar de trabalhar no meio da noite? E a produtividade? E o rendimento? Vão fazer greve agora?? A esse ponto você se tornou um capitalista ambicioso, de cartola e chicote na mão, gritando “MAIS VAPOR, IMPRESTÁVEIS” pra os trabalhadores da caldeira. É nisso que esse estilo de vida natural te transformou? Trabalhando dia e noite pra comprar pão 12 grãos, tomando chás naturais comprados à granel, comendo quinoa e linhaça, e é isso que você tem que passar? PORRA NENHUMA!

“Chega de métodos naturais que não adiantam porcaria nenhuma, eu quero resultados e eu quero agora! Foda-se chá e banho quente, eu vou mandar um coquetel de comprimidos pra eu poder dormir e respirar, EU TENHO DIREITO DE RESPIRAR! EU SOU UM EMPREENDEDOR SEM CORAÇÃO E VOU DEMITIR TODOS OS MEUS FUNCIONÁRIOS PRA COMPRAR MÁQUINAS!”

No meio do seu devaneio de ira e revolta, uma única narina sua resolve voltar a funcionar. Se foi pra te provocar ou pra te livrar do sofrimento, você não sabe. Pode ser também que seu corpo só tenha respondido a todas as tentativas; é só um corpo afinal de contas. De qualquer forma, você respira e sente os seus pulmões se enchendo com ar quente e denso, e é tão gostoso quanto você imaginava. Mais algumas tragadas e a outra narina volta a funcionar também, no 60%, mas já é o suficiente. Você sai do banho e volta direto pra cama. Tudo mudou; seu corpo está relaxado, a cama está macia e convidativa, você sente desejo quase erótico pelo travesseiro.

O sono entra vagarosamente pela porta do quarto. Você o vê de olhos semicerrados, e com um fôlego profundo e um abraço no travesseiro, o convida pra deitar ao seu lado; mas em vez disso ele te estende a mão. Depois te leva pra passear, te mostra campos de camomila iluminados pela lua, onde libélulas namoram. Ao fim, vocês encontram uma indústria abandonada, com máquinas à vapor enferrujadas e pés de quinoa crescendo pelo chão de fábrica. Respirando tranquilamente em meio aos pés os operários da indústria dormem, e você se deita junto.

Tá tudo bem agora.

diferença de opinião

Faz um ano e dois meses que eu me mudei pra outra cidade, pra longe da metrópole, pra longe dos meus amigos, pra perto de um trabalho que eu não gostava, pra morar sozinho em um espaço suburbano do qual eu não conhecia nada; reconsiderei, duvidei, chorei.. mas enfim, mudei. Tudo fez parte de um propósito. Eu tava exausto de pegar 3 ônibus todo dia pra chegar no trabalho, e eu queria experimentar como seria morar sozinho, eu queria criar um espaço só meu, físico e mental, onde eu pudesse fazer arte e o que mais eu estivesse afim.

Poucas foram as pessoas que entenderam o que eu tava fazendo e até hoje poucas são as que entendem; tenho colegas que sentem dó por que eu tenho que pegar ônibus pra ir pro centro da cidade pros rolês, ou por que eu tenho que voltar cedo, pois o ônibus acaba cedo e o uber sai muito caro; ouvi muitos “ah que pena” condescendentes de pessoas que acham que eu sofro por que aqui “não tem nada pra se fazer”. Por outro lado também poucos foram os que se propuseram a entender, que se interessaram em me visitar, e que se interessaram o suficiente na minha mudança pra descobrir os detalhes do que fazem isso fazer sentido.

Nos primeiros meses da minha mudança eu enfrentei todo tipo de rejeição nesse novo espaço. Não conhecia ninguém, não sabia andar por essas ruas e não sabia falar com as pessoas. Do outro lado (no sentido bem literal, por conta da ponte que nos separa), eu perdi o convívio diário com pessoas próximas, fiquei de fora das piadas internas, e fui escanteado em grande parte da diversão do verão por não estar lá.

O que parece ser uma pá de tristeza na verdade é o maior dos meus trunfos, ou pelo menos se tornou. A distância permitiu que eu me conectasse com três amigas que moram aqui, onde nada acontece; a estranheza das ruas virou combustível pra curiosidade, comprar uma bicicleta e me perder por aí; se sair dá trabalho, então eu só saio quando realmente quero; se ninguém vem me visitar, então eu tenho a certeza do meu espaço pessoal de silêncio e solidão quando eu preciso dele. Eu não tenho ninguém comigo, ninguém pra compartilhar essas experiências e ninguém que entenda meus percalços, ou seja, é tudo meu.

Ninguém lembra de quando eu não tinha escorredor de louça e empilhava tudo na pia. Ninguém riu de desespero comigo quando eu quebrei um coco em cima da pia e parti a própria pia em dois no processo. Ninguém sabe da paz em limpar a casa inteira usando um balde de água e um rodo. Ninguém sentiu a frustração de perceber que se eu não fosse até meus amigos eles não viriam até mim; que pra eles meu esforço era tomado como garantido. Ninguém cavou um lugar de respeito com o atendente da hortifruti, que à primeira vista te via como um completo estranho; nem descobriu que a dona do brechó não é só carinhosa, mas também meio confusa da cabeça. Ninguém sentiu comigo a agonia de voltar pra casa e encontrar ela completamente revirada, e ninguém mais sente a alegria de ver a bicicleta esperando na estação. E por mais que eu fale ou escreva, ninguém vai saber enquanto não viver coisa parecida.

Nesses um ano e dois meses eu consegui arranjar outro emprego que eu gosto muito mais que o anterior, e que ainda é tão perto de casa quanto o anterior (inclusive é do outro lado da rua). Até então tudo suave, mas hoje eu recebi a notícia de que a nossa sede vai se mudar, pro outro lado da ponte e mais um pouco. O que é muito conveniente pra mim hoje logo vai se tornar um pavor, por que o fluxo de cá pra lá é pior ainda que o de lá pra cá, e as horas de deslocamento tornam toda a estrutura que eu criei aqui impossível de se manter.

Queria bater o pé e dizer que eu não mudo de opinião, mas não sou doido nem Nara Leão pra achar que tenho esse luxo; eu já conheço a mobilidade urbana dessa cidade. Fica então o registro da minha tristeza e ansiedade antecipada. Eu trabalhei muito pra chegar nesse lugar de conforto, e pra transformar essa diferença de opinião em uma âncora da minha vida; é nessa diferenciação que eu venho me descobrindo, fortalecendo o que é meu, e não do outro. Pra alguém que se acostumou a ser fruto do meio, é uma grande coisa.

Sol em Leão – 24 de Julho a 23 de Agosto

Felicidade cansa.. não que eu não queira ser feliz, não é nada disso, mas existe um gasto energético em estar feliz, principalmente estar feliz em grupo, e perpetuar essa felicidade. Estar em grupos cansa, ter amigos cansa; e eu não quero ficar defendendo meu ponto de vista das vozes na minha cabeça que estão me chamando de ingrato.

Nessa temporada eu senti com tudo a energia da empolgação, alegria e criatividade; mas COM TUDO!!, e acontece que na estrutura de vida em que eu vivo hoje eu preciso de pausas pra descansar, recuperar não só a mente, mas também o corpo, e conseguir me dedicar aos compromissos que constituem minha rotina. O que acontece é que eu não fui capaz de me dar essas pausas, por que todo e qualquer espaço em branco desse mês foi ocupado com empolgação, alegria e criatividade. Se isso não te parece incômodo, IMAGINE LER ESSE TEXTO TODO EM CAPS LOCK!!! IMAGINE QUE AO INVÉS DE VÍRGULAS! EU USASSE PONTOS DE EXCLAMAÇÃO!!! IMAGINE UM ASMR DO CONTRÁRIO!!!

A princípio era tudo radiante e colorido, mas à medida que o tempo passava, a saturação queimou as formas, as cores oxidaram e eu me senti completamente distorcido e grotesco. Daí você entende por que sua professora de yoga te fazia se imaginar em uma paisagem tranquila e vazia.

Você pode me dizer então que nesse caso o problema é a falta de tempo pra descansar e eu posso te dizer que, apesar do seu raciocínio estar correto, sua conclusão não poderia estar mais errada. O problema nesse caso sou eu. Se eu tivesse mais tempo livre eu provavelmente teria ocupado ele com mais coisas pra fazer.

Se a culpa é minha, por que então eu tô reclamando? Por que eu posso! Além do mais, não digo que foi ruim, só quero relatar como me senti; poderoso, agressivo, imponente, tóxico. Fato que eu fui realmente um grande criador nesse momento, e sinto muito orgulho das coisas que criei. Fica a lição de que a alegria sozinha não cura tristeza. Até por quê, vem cá.. tristeza precisa de cura?

para Ber

Esse lugar guarda uma memória
mas essas palavras são bonitas demais
e escondem a carne rasgada na madrugada
a saliva amarga e a garganta cheia de ódio

Esse lugar sangra uma memória
e toda vez que sangra ela escorre e fede
essa rua sangra
essa rua grita
esse beco cala

Aqui eu não sou bem vinda
A cena seca que, na dor da causa
cria circo e toma pra si
o sangue no olho e a serpente
Que se enrola na minha pele
mas não cura minha carne

Nesse chuveiro a água escorre rasa
e o ralo
quente
sabe que a carne esfolada é ainda mais viva.
A cicatriz esconde o pus
mas minha memória é arma
e minha língua é navalha.

Vocês não terão paz
enquanto eu ainda sangrar.

Oui oui, trés bon!

Mas meu deus eu pego um vôo internacional NA VIDA e eu já quero ser fluente em francês. Tem coisa mais chique e intelectual que pedir um vinho branco em francês? Recusar um pão em francês? Excuse moi madam, pode me dá licença pra eu ir no banheiro que eu comi um prato de feijão e o trem tá ficando feio!! Toalete sivuplé? Tem uma senhora muito européia do meu lado, acho que ela é francesa. Acho que ela é princesa da França. Os europeus são todos assim com essa aura de quem merece ter mais coisa que nóis?

Tô observando todo mundo que me parece chique pra ver se eu descubro a fórmula. Eu achava que ser chique tinha a ver com não comer carboidrato, mas eles servem uns três pães por refeição, então não deve ser. A moça do meu lado é enóloga; trabalha selecionando vinhos pra harmonizar com os menus dos bistrôs. CHIQUE! Ui, a senhora do outro lado puxou um óleo essencial. CHIQUE! Falou que não usa remédio e cura tudo com óleo essencial e homeopatia. Gente ela tem um filtro dos sonhos pendurado no celular! Uma baita duma hippie e eu te achando podre de chique? Só por que tu é branca de olho azul? Olha meus parabéns ao processo colonizatório 👏🏾 VOCÊS 👏🏾 CONSEGUIRAM! 👏🏾

Talvez sejam minhas criações psíquicas, mas eu me vejo como um completo alienígena nesse meio. A triste sina da bicha colonizada que não é descendente de porra nenhuma.. olho pra essas pessoas e não me sinto parte dessa realidade, por mais que eu tenha pago igual todo mundo pra estar aqui eu fico pensando que eu faço parte da primeira geração da minha família que não morou no mato, em casa de pau; da segunda que foi pra faculdade, e que o resto dessas pessoas já nasceu rica e cheia de sobrenome… E isso me acompanha pela vida, eu sinto que eu tenho que me esforçar o tempo todo e cuidar da minha postura, pele, cabelo e comportamento pra me sentir higiênico, apresentável, desejável.. pra sequer ficar à vontade. Minha vontade é de levantar e gritar EU SÓ TÔ AQUI POR CAUSA DO PT!!!!! mas toda essa genética recessiva tá me deixando bastante desconfortável.

Pra mim já chega, tô cansado dessa galera. Tô cansado dessa estrutura e tô cansado de buscar a aprovação dela; quero criar uma noção de beleza e riqueza que não depende desses símbolos de soberania. Corrente de ouro? Cristais Swarovski? A amazônia morrendo e vocês vão abrir buraco na terra pra se pagar de fina, BANDO DE BURGUÊS SAFADO!!!? Chique é um intestino regulado, é ter as moedas certinhas pra fechar a compra, é acesso global à água potável. Militei? Pois bem, ainda tô aqui no meio das duas damas e ainda tenho uma longa viagem pela frente. Vou ver se eu descolo um óleo essencial.