Morcego Brilhante Eterno

MORCEGO

“A hora chegou!” exclama o Mago, resoluto. “As estrelas se alinharam no céu de outubro.. as nuvens são profundas e espessas.. A hora chegou! Posso sentir nos meus pêlos, nos meus ossos, no forro da minha boca.” Ele entra em seu quarto e, cantarolando, empilha objetos sobre sua mesa de pedra: cogumelos, barro fresco, um dente de chumbo, ainda com a raiz, flores de vidro, e um enorme galo, talhado em safira vermelho profundo. Ele se olha no espelho e, com destreza, desenha linhas coloridas que contornam seus olhos, se abrem em labaredas e se encontram em sua testa. “Há tanto tempo eu espero esse momento, tantos caminhos cruzei para possuir esse feitiço; e hoje meu desejo será finalmente realizado.”

“Acordem, meus animais da noite! Chegou a hora! Sapo, me traga uma libélula de fogo. Aranha, me faça uma garrafa de seda prateada. Coruja, me traga dióxido de salamandra; e Morcego, para você tenho uma tarefa muito especial. Vê esse frasco? Pegue-o, vá até a torre mais alta e traga-o cheio de sulfato de lua cheia! Vão, meu feitiço os espera!”

O Mago então caminha até a mesa, tira sua túnica preta e verte, sobre a mesa, um óleo translúcido e viscoso, de aroma metálico. Depois se debruça sobre a pedra, deslizando o peito nu sobre a superfície enquanto segura suas arestas, que começam a emitir um brilho fantasmagórico de um sensual tom de verde.

BRILHANTE

Sentado nas telhas da torre mais alta, o morcego olha o enorme astro que paira no céu, estupefato, “Oh, Lua, luminar da noite, você é tão linda que mesmo um cego como eu consegue ver seu brilho e sentir sua graça! Por quantas noites voei na sua luz e ainda assim, agora, sinto como se fosse sucumbir em pedaços sob a sua presença; desejando, mesmo que brevemente, poder te tocar”. Inundado pela emoção, ele desata em um agudo choro “Ah, Lua, dama celeste de compaixão e graça. Você que nos ilumina e inspira, você que é linda e magnânima, brilhante e perfumada, consegue me ouvir?”. Ouvindo o lamento, a Lua se aproxima para consolá-lo. “Meu querido morcego, consigo sim te ouvir, por que você chora?” “Deusa, eu quero te tocar! Não quero mais ser um morcego, minúsculo e fraco, eu te amo. Me transforme em um satélite eterno, de sabedoria sem fim, para eu lhe beijar e dançar no cosmos, pra sempre com você!”

A Lua acha graça da inocência do morcego. “Tão carinhoso.. Eu não posso lhe fazer isso, meu querido, por maior que seja seu amor.” “Por quê? Por que eu sou cego? Por que sou feio?” “Eu não posso fazer isso, lindo morcego, nem por você nem por ninguém, porque isso não seria uma benção, e sim uma maldição.” “Por que diz isso, Lua? Quem de nós não gostaria de ter o seu brilho, sua glória serena, seu poder?” A Lua suspira, olhando para o curioso mundo que se desenrola em sua frente, profundo em suas águas, afiado em suas montanhas. “Vocês, mortais, sempre querem aquilo que não lhes faz bem.”

“Eu brilho, sim, mas porque não tenho outra escolha. Minha jornada se estende pela eternidade, vaguei sozinha no vazio do universo por muito tempo, antes de chegar aqui, nessa abóbada azul onde você me contemplam hoje; vaguei pelo fogo e pelo nada. Nem sempre fui assim, mas a eternidade me transformou, e pago até hoje por tudo aquilo que fiz.. Até hoje eu vejo meu reflexo no mar, e sinto a dor de não poder me banhar. Eu nunca mais poderei ser tocada.”, ela suspira, com candura, e conclui “Eu abri mão da vida para viver a eternidade”.

O morcego, enxugando as lágrimas, pergunta “Então.. por que você fez isso?” “Por vocês.” “Mas por quê?” o morcego insiste. “Porque eu sou a Lua. Eu amo vocês, e vocês precisam do meu amor”, conclui, sorridente. O morcego sorri também.

“Mas você veio me pedir outra coisa, não?” a Lua diz, apontando para o frasco pendurado no pescoço do morcego. “Ah, é verdade!”ele recobra a atenção e estende o frasco para a lua. “Pode me dar um pouco de sulfato de lua cheia?” ele encara o chão envergonhado, “Meu mestre está fazendo um feitiço pra invocar-” a Lua o interrompe, rindo, “Eu prefiro não saber o que o seu mestre está fazendo”, e com um estalar de dedos, enche o frasco com um pó prateado e brilhante. “Agora feche os olhos, Morcego”, e derrama sobre ele uma única gota de um finíssimo óleo. “O que é isso?” “Perfume de Pedra doce, um presente, pelo seu carinho. Agora vá! Seu mestre te espera.” O morcego se despede e vai embora, dando piruetas no ar enquanto voa.

ETERNO

“Vocês precisam do meu amor?” No vasto cosmos, Marte retruca, “Você é manipuladora, Lua. Fala isso só para fingir que é fonte da felicidade dos mortais. Ninguém precisa do seu amor.” A presença dele é intimidadora, mas não parece ter esse efeito sobre a Lua. “Fale comigo com um pouco mais de respeito, Marte, ou fique em silêncio” e provoca, “Honestamente, irmão, às vezes acho que o que você tem é inveja da admiração que sentem por mim.” “Ha! Inveja de uma admiração falsa? Não me faça rir.. Você lhes fala de amor e sacrifício como se fosse capaz de sentir isso por qualquer um desses mortais, mas sabe como eu ou qualquer outro que suas existências não passam de espirros do tempo.” diz Marte, resoluto por saber que, naquele momento, não fala com rancor, mas com verdade – não vê o menor sentido em toda a imagem de devoção que a Lua insiste em nutrir – e finaliza, “Você não os ama.”

A Lua suspira, incólume. “Mas eles me amam, e eu aceito ser amada. É disso que eles precisam, Marte, de alguém que os escute. Sei que escutar não é seu forte, mas tente entender..” ela ri, e continua, “Eu não tenho o menor interesse em ser tocada, ou em tomar banho de rio.. mas isso interessa a eles, e eu os vejo. Eles me amam, eu apenas reflito esse amor.”

“Mas nunca poderá amá-los.” Marte insiste.

“Nunca poderei amá-los. Não saberia nem por onde começar. Mas, ainda assim, continuarei sendo amada. É esse o preço que pago, e pagarei por toda a eternidade.”


Boa noite pessoal!

Esse conto veio de um exercício de criatividade que eu e mais dois amigos fizemos. A gente sorteou três palavras e então tinha que criar algo que incorporasse essas palavras – Morcego, Brilhante e Eterno, se não ficou claro até agora.

Primeiro pensei na conversa entre o morcego e a Lua, mas achei muito parecido com outras coisas que já escrevi. Descobri que dois seres personificados conversando sobre a vida é um lugar comum da minha escrita, putz. Então tive essa ideia de dividir o conto em três partes, cada uma delas com um tom, um cenário e uma atmosfera própria; algo que despistasse o leitor, e deixasse você com três histórias incompletas e nenhuma lição de moral.

O que eu mais gostei foi de escrever com essa linguagem teatral, em que o narrador fala muito pouco, e o tom da cena é dado quase exclusivamente pelos personagens.

Obrigado por ler!

A mulher que não conseguia dormir por que estava cheia de não preso na garganta.

Visualize a seguinte cena:

Uma mulher entra em um quarto, o quarto dela, e se senta na beira da cama com olhar vago e cansado; as luzes estão desligadas. O nome da mulher não importa, pode ser Gabriela, Alessandra, Juçara, ou qualquer outro nome que você conseguir pensar, não perca muito tempo nisso; é importante lembrar que a mulher não existe realmente, é você quem a está visualizando, e ela só vai existir enquanto você a imaginar, então o nome é de menor importância.

É uma noite comum, um dia de semana de uma semana sem feriados ou qualquer comemoração especial, então ela deveria estar indo dormir; mas permanecia sentada na beira da cama há horas, incapaz sequer de se deitar. Traz em si um sentimento estranho que não vai embora, estava com ela desde a hora do almoço, no intervalo do trabalho. Não é importante saber qual era o trabalho, mas é importante saber que em dias comuns almoçava sozinha; havia dias em que algum colega almoçava junto, ou que ela saia pra almoçar com todo um grupo, mas hoje era um dia comum, então estava sozinha no restaurante mais perto do trabalho, nas mesas do pátio. Gostava de almoçar só porque poderia demorar o quanto quisesse; ela ia ao buffet, se servia de uma salada colorida e comia catando os legumes um por vez. Primeiro os tomates, depois as cenouras, depois as beterrabas. Estava no meio dos tomates quando sentiu que estava sendo observada.

Olhou ao seu redor mas, das poucas pessoas presentes no pátio, ninguém prestava atenção nela. Exceto talvez.. mas não poderia ser.. em uma árvore baixa a uns dois metros de distância da sua mesa, um pequeno pássaro olhava atentamente em sua direção. Primeiro quis acreditar que o pássaro encarava sua comida, com desejo de estar ele comendo os tomates, depois as cenouras, mas a verdade é que o pássaro olhava para a mulher, e ela sabia disso. Ela voltou a comer, passando para as cenouras, depois para as beterrabas, esperando passar algum tempo antes de olhar novamente para a cena. Olhou. Como antes, o pássaro a observava, talvez com mais intensidade ainda; não como alguém interessado, ou curioso, mas como se estudasse seus hábitos e mecanismos, como se seu ritual de comer os tomates primeiro significassem algo muito maior, algo que ela mesma ignorava.

A fome da mulher cessou no mesmo instante. Recolheu suas coisas e foi embora, largando o prato na mesa. No caminho de volta para o trabalho, engolia o rancor que sobrara da experiência.

É importante se lembrar, porém, que ela não está mais no trabalho, e sim sentada na beira da cama. Foi necessário que você entendesse o sentimento que a impede de dormir, para que pudesse sentir também. O que você sentiu? Qual era o gosto do rancor?

Por favor, volte a visualizar a mulher no quarto. Ela permanecia sentada na beira da cama, incapaz sequer de se deitar para dormir. Pensa no sentimento estranho que não vai embora, como se ainda não tivesse digerido os tomates do almoço. Sente-se pequena, previsível, segurava os próprios cotovelos como se eles pudessem cair do corpo. O que o pássaro teria visto nela? Que conclusões teria tirado? Tem certeza que se ele pudesse, teria a cutucando com um graveto, ou jogado migalhas de pão pra vê-la comer.

A mulher se levanta e se olha no espelho. Precisava fazer alguma coisa que a fizesse sentir humana novamente, e rápido! Agoniada, ela se veste, toma um copo d’água da geladeira e vai para o seu carro. Seu plano é ver o sol nascer na praia. Existe uma cidade na divisa do estado, uma que tem uma praia extensa, e que ela costumava visitar com a família quando era mais jovem. A areia é áspera e acinzentada, mas é a praia mais perto dela e o nascer do sol lá é muito bonito, se lembra. Ver o sol nascer na praia, ser impulsiva!, é garantido que vai fazer ela se sentir bem.

Então ela dirige, sai da cidade, do perímetro urbano e atravessa estradas extensas, acompanhada pela mata nativa. Talvez não seja nativa.. mas de qualquer forma parece familiar, e isso já é o suficiente. Ela chega à praia já em meio à aurora, pouco antes de amanhecer.

Enquanto sai do carro e caminha em direção à areia, percebe que o sentimento que carrega consigo vem mudando e ganhando tons de resolução, como se pudesse em breve fazer algum sentido.. mas não ainda. Enquanto caminha na areia e olha pro mar, o céu índigo vai se diluindo em tons cada vez mais celestes de azul e ela pensa o que falta pra se ver livre de vez dessa situação. O que mais precisa fazer? Pra ver a si mesma como alguém que merece ocupar espaço nesse mundo? Pra dizer que suas atitudes são mais que meras progressões automáticas de outras atitudes anteriores; pra sentir que entre o vão de seus dedos ela agarra algo de precioso;

Uma voz familiar chama a mulher pelo nome, com um tom de interrogação e surpresa; ela também fica surpresa ao reconhecer uma antiga colega de faculdade caminhando em sua direção, com roupas de fazer exercício e uma garrafa d’água na mão. “O que você tá fazendo aqui?”, pergunta a colega após um rápido abraço, “Quando foi que você se mudou pra cá?”; uma pergunta que pra ser respondida corretamente exige muitas outras perguntas, então apenas responde: “Não me mudei ainda, vim aqui de passagem, quis ver o mar. Você tá aqui desde quando?”. Conversaram dessas coisas desimportantes por alguns minutos, os trabalhos de cada uma, os caminhos que tomaram, outras pessoas que conheceram.. até que ficam em silêncio. A mulher que não dormia olha para o horizonte, e pensa consigo quando será que o sol surgirá por trás do mar, pois já começava a ficar claro. Sua antiga colega a chama novamente e pergunta: “Mas me conta.. o que foi que aconteceu?” “O que aconteceu com quem?” “Com você. Não me leve a mal, mas você tá de jeans na praia, são seis horas da manhã… é quinta feira…” ela deixa o pensamento em aberto, evitando ser mais invasiva. “Ah, não foi nada, eu não conseguia dormir, ficava pensando..” a mulher pausa, recuperando o que a levou até ali enquanto fala, se sentindo uma completa tola; até que, angustiada, revela: “Ontem de manhã.. foi durante o almoço na verdade, eu tava almoçando.. sei que uma hora eu percebi que tava sendo observada.. eu tava sozinha, mas tinha um pássaro me olhando, era um pássaro desses da cidade, parado numa árvore e me olhando enquanto eu comia.. não pra minha comida mas olhando pra mim, entende? Eu senti que era pra mim!”..

Ficam em silêncio suspenso por um momento, quebrado por uma respiração profunda da colega, que se aproxima e segura a mão da mulher com um suspiro empático. A colega toma um gole de água e, “Vou te contar, esses dias eu tava saindo de casa e uma maritaca pousou em cima do meu carro. Eu tentei espantar, mas daí ela passou uns dois minutos gritando pra mim, olhando nos meus olhos, sabe bem nos olhos?”, uma pausa, mais um gole d’água e continua, “Me tirou do sério. O que passa na cabeça deles afinal?.. demorei uma semana pra voltar ao normal.”.

A mulher sente como se toda a matéria do seu corpo tivesse sido ancorada no mundo de repente, sua boca formiga levemente, seus olhos atentos. Ela olha nos olhos da colega. “Acontece, né?” É tudo que ela consegue dizer. “Pois é.. enfim, eu preciso continuar meu exercício.” A colega recupera a postura que tinha quando chegou e sorri. “Tem uma pedra aqui nessa praia, um pouco mais pra lá, você vira à esquerda.. ela fica virada pro mar, é ótima pra gritar”. A colega retoma o passo da caminhada, “Me chama pra a gente jantar um dia!”, e vai embora.

A mulher ri de si e da sugestão da colega, mas certeiramente, vai na direção indicada, e vira à esquerda; lá está a pedra, logo antes do fim da praia, num momento em que a faixa de areia é tomada pelo mato.

O símbolo que faltava?

Ela sobe na pedra.

O ângulo da pedra, alinhado ao da curva a fazem ver nada além de mar e céu. Ela pensa em outras praias; praias que pareciam ter mais mar do que céu, e praias que pareciam ter mais céu que mar.

Ela inspira fundo e grita, então, com toda a força:

NÃO!

Você ouviu o grito, na sua cabeça? De quem era a voz que gritou? Qual nome você deu para a mulher? Não é engraçado alguém que não existe gritar tão alto na sua cabeça?

Ela tira os sapatos e molha o pés no mar por um momento antes de começar a viagem de volta. Enquanto se calça novamente, olha as horas, e enquanto caminha de volta pela praia, pensa que no fim das contas não viu o nascer do sol. O sol, na verdade, está nascendo no lado oposto do mar, por trás das ruas e casas.

“Engraçado”, pensa, “O bonito mesmo devia ser o pôr do sol, então”.

Saudades de um tempo mais simples em que eu sorria

Eu tô passando por um sério problema, vou te falar o quê: desde que eu comecei a escrever poemas e, principalmente, a vender poemas, eu esqueci como é que eu fazia pra escrever um post inteiro de pura bobagem como eu fazia antigamente. Parecia tão simples, acontecia uma qualquer coisa, eu tinha uma ideia, gastava um, talvez dois dias escrevendo.. e eu escrevia como se tivesse falando com qualquer um, sabe? como se fosse uma mensagem de whats… depois botava umas fotinha porca….. e eu me sentia a pessoa mais engraçada e criativa do mundo! Depois quando eu ia ler de novo muitas das coisas não faziam mais sentido e às vezes nem eu conseguia entender qual era pra ser a piada, mas era BOM FAZER ISSO! Era fresco, e eu era fresco! Fresco como hortelã. Hoje eu só sou fresco no sentido homossexual mesmo, emocionalmente eu sou triste e amargo. Fresco, mas como uma rúcula.

E o que a poesia tem a ver com isso, você me pergunta? Simples, eu te respondo (mesmo sabendo que no fundo não é tão simples assim); vender texto é um TÉDIO! Ninguém quer saber de ler, muito menos algo que elas não conhecem. Nas feiras gráficas onde eu costumo expor, as pessoas só querem saber adesivos pra colar no celular. Eu falo “Pode pegar!” pra incentivar que a pessoa realmente ˜leia~ o papel que tá na frente dela e a pessoa:

ah! kkkk tá.
“Rosas são vermelhas,
violetas são azuis
nanana nanana,
seu sorriso me seduz..”
nossa que lindo!!
Eu vou ali e já volto

SENHORA, POR QUÊ VOCÊ TÁ CORRENDO?

É complicado, dói, não vou negar.

Às vezes têm aquelas que se interessam de verdade, e leêm de verdade. Tem gente que gosta do meu trabalho e se emociona com ele, e aí EU me emociono com a emoção e a gente chora junto, às vezes a gente beija na boca. Faz valer a pena, e eu não tô menosprezando, mas as negativas colocam em cheque a confiança no meu trabalho e até mesmo meu desejo de continuar fazendo isso.

O blog também tem disso, você escreve, depois vai gritar no vórtex da internet, pedir pras pessoas lerem.. a diferença principal é que eu não preciso olhar pra cara de ninguém, e a gente evita aquela interação vergonhosa mencionada ali em cima. Imagina se eu tivesse que olhar na cara das pessoas enquanto elas leem o blog? Imagina eu com um notebook no meio do centro da cidade chegando nas pessoas falando oi quer ser minha amiga???? Desculpa, acho que eu me perdi nas ideias.

E aí, como você tá, me conta?

Tem estudado? Tem assistido alguma coisa legal? O quê que aconteceu que aparentemente agora a única coisa que existe pra assistir é série do netflix? E de filme, quem aqui viu O Farol? Eu vi e amei, acho que foi o último filme recente que me deu tesão. Antigamente eu tinha uma fissura nervosa em filmes novos, assistia o teaser, assistia o trailer 1, trailer 2.. mas agora parece que todos os filmes novos são remakes ou trilogias, e os trailers me parece que são todos iguais. Fui eu que fiquei chato?

Algo em mim diz que não, mas algo em mim diz que sim. Acho que a máxima de que a ignorância é uma benção se encaixa muito bem nesse caso. Eu sinto que muita coisa mudou em mim, do garoto que gostava de trailers e escrevia bobagem com muita alegria pra um adulto que odeia hollywood e escreve poesia melancólica; mas sinto que muito dessa mudança veio de uma nova percepção do mundo, de uma nova postura e consciência. E um pouco de trauma também, não vou negar.

Mas meu ponto é: não faz mais muito sentido eu me empolgar com o trailer 3 do Homem Formiga 2 quando eu já me dei conta de que não tem anda de novo ali, e não faz mais muito sentido eu só escrever despretensiosamente quando eu tenho pretensões (e depressões). Eu amo escrever em linguagem de blog e falar muita asneira, mas eu também tenho desejo de escrever histórias que emocionam as pessoas, assustam as pessoas, revoltam as pessoas, eu tenho desejo de falar em metáforas e de escrever sobre sentimentos. Eu ainda quero ser um escritor publicado, poxa, e hoje em dia não publicam qualquer coisa.

Pois o Felipe Neto tem 3 livros publicados.

Enfim pessoal, eu tô indo nessa. Logo mais eu volto com algum fluxo de pensamento, drama psicológico, poema contemporâneo ou arte performática. Espero que você aproveite esse final de semana, que fique em casa com saúde e que sua arte seja valorizada, seja ela qual for.

Um beijo do seu.

pra aliviar a tensão

Minha maior dificuldade de ser humano é ter um corpo. A nossa mente assume todas as formas imagináveis, de todos os materiais, tamanhos e físicas possíveis, quando não impossíveis, e o nosso corpo é somente humano. Eu posso até ter crescer e diminuir ao longo da vida, mas mantenho a estatura humana, as formas humanas, as proporções humanas. O corpo humano é limitado. Meu corpo é e sempre foi de carne e osso. Tecidos e hormônios.

Eu queria ser feito de papel, pra poder me segurar pela cabeça e me rasgar de ponta a ponta.

Nesses dias de raiva, em que fazem ferver meu sangue, eu me rasgaria em dois, uma perna pra cada lado, e minha cabeça eu rasgaria mais umas três ou quatro vezes, só pra ter certeza.

Eu poderia ser feito de gesso, pra ser arremessado contra o chão e me partir em pedaços.

Cada pedaço uma lasca porosa, vazia. Se você procurasse por mim eu estaria em várias partes pelo chão, parte de mim em pó. Se alguém precisasse de mim, poderia me dissolver na água e me remodelar, e eu sairia novo em folha. Sem lasca, sem trauma.

Eu gostaria de ser feito de sal, um corpo feito de minúsculos cristais.

Um breve vento já seria o suficiente pra me desconfigurar, e um copo d’água o suficiente pra me dissolver. Se alguém tentasse me tocar não conseguiria, e a mão que me agarrasse me veria escorrendo pelos dedos.

Se minha cabeça fosse um balão, só a minha cabeça, eu poderia cortar um fio e flutuar pra longe.

Assim eu veria as coisas de uma outra perspectiva, de cima, de longe. Não tem mais nada nessa cidade que seja meu, o corpo podem dar pra alguém que precise.

Eu sonhei com um corpo feito de gasolina, mas acordei ensopado de um suor inerte.

Nada em mim era volátil, reativo, explosivo. Nada em mim conseguiria me aquecer, me tirar dali. Nenhum vapor entorpecente, ou fumaça tóxica. Depois de alguns segundos, me levantei e me sequei com uma toalha, que escorreu gelada pela minha pele. Eu sentia frio, mas minha coberta sentia ainda mais do que eu. Eu senti vontade de acender um fósforo em alguma coisa e dormir abraçado ao fogo.

Naquele momento, o ideal de beleza já não tinha nada a me oferecer, não queria a pele do tom certo, sem manchas ou feridas, não queria os músculos sem gordura e nem as dobras sem cheiro.

Não quero o corpo perfeito por que o corpo é insuficiente. Quero, no lugar, o crime perfeito.

Sem arma, sem motivo e sem corpo.

Sol em Peixes – 20 de Fevereiro a 20 de Março

É engraçado pensar que esse pode ser o fim. Você pensou em colunas de fogo e o mar virando sangue? Sinto muito. Mas vou te falar que já não me importo muito com como o fim do mundo vai se parecer não, desde que acabe pra mim já tá bom. Já dedicamos tempo suficiente pra esse modelo que não funciona, e é frustrante ainda ter que lidar com modelos tão retrógrados ganhando espaço na humanidade; espaço estrutural e no arsenal do imaginário humano. Porra eu vivo uma mudança tão profunda de paradigma, de um pequeno viadinho de uma cidade pequena pra uma bicha formada na metrópolis.. é tudo tão contrastante que me choca olhar pela janela e ver pessoas batendo ˜palmas pela saúde!!!!!!!˜ CRIEM VERGONHA!!!

Meu coração dói, mais por mim que pela humanidade, e dói bastante pelos sapos também, por que eles não merecem afogar em plástico.. acho que em sangue seria melhor. Tem uma praga que é chuva de sapo também né? Imagina que delícia, a rua cheia de sangue, as roupa tudo mastigada de gafanhoto você sai do seu prédio que a essa hora é uma fogueira de são joão e SCHLAP! um sapo direto na tua teta. E aí depois de todos nós mortos vem a nova era, dominada por sapos. Graças a Deus!

Em outras boas notícias, eu fiz as unhas lindamente, arranquei só dois bife, e nesse momento tô esperando a camada de azul cobalto que eu passei secar pra dar uma polida e quem sabe uma camada de intensificador de brilho. Eu arrumei uma casa nova pra morar e arrumei a casa nova na qual eu moro. Eu estou de quarentena com mais dois amigos, o que é muito bom mas ao mesmo tempo é assustador. ASSUSTADOR! Desde que eu me mudei pra Palhoça o máximo de dias seguidos que eu fiquei na companhia das mesmas pessoas foi sei lá.. quatro?

Enfim, eu preciso encerrar essas postagens, eu não sei aonde eu me meti quando eu comecei tudo isso mas eu fico feliz que eu fiz. No fim das contas, se ficou bom ou se ficou ruim (ficou ruim), eu fiz algo que eu queria fazer: escrevi todo mês, falei abertamente, escrevi sem ter aonde chegar. Resultado? Cheguei a lugar nenhum! Tente não chorar de emoção.

Quanto a mim tentarei não chorar de saudade, mas prometo não dar conta. Foi bom demais tudo que vivemos junto, e nada nunca vai se comparar a isso. A roda roda e aqui voltamos ao mesmo lugar: uma nova estação chega e com isso uma velha se vai. Uma camada que sai pra revelar por baixo dela: ela mesma, mas como nunca foi vista. E assim eu vou, e te vejo por aí, mas nenhum de nós será o mesmo, jamais.

Au revoir!

Sol em Aquário – 22 de Janeiro a 19 de Fevereiro

Entender meus sentimentos tem sido uma longa longa viagem e eu não sinto mais a presença daqueles que estavam comigo no começo, não de todos pelo menos. Quando digo “daqueles” me refiro não somente aos sentimentos imateriais, mas também às personificações desses sentimentos em outras pessoas, que eu mantinha por perto justamente pra que cumprissem essa função. Penso que parte deles tenham morrido, outro pedaço creio que perdeu a memória ou trocou a antiga vida por uma fina, mas convincente, ilusão. Não fico triste por nenhum deles, sendo bastante honesto, mas também não posso imitar suas atitudes; não é isso que cabe a mim. O que cabe a mim? Uma missão arriscada, a conciliação de duas metades, o esverdeado de uma casca de ovo.

“Meu corpo é uma gaiola” tem uma música que fala assim; “que me impede de dançar com aquele que eu amo, mas minha mente tem a chave”, mas não é por que ela tem a chave que eu posso usar, às vezes preciso conciliar com a mente pra ter momentos dessa liberdade. “Meu corpo é uma gaiola que me impede de dançar com aquele que eu amo, mas minha mente tem a chave”. Caralho, é muito lindo.

Eu estou apaixonado, descobri recentemente enquanto eu olhava pra esse homem que estava na minha frente, bebendo um vinho na janta ou comendo o café da manhã que eu tinha feito pra ele. Não lembro exatamente qual era o contexto, mas era trivial assim. De repente a mera existência dele virou um sinônimo de alegria, sem que ele precisasse estar me beijando, falando coisas bonitas, ou fazendo qualquer coisa minimamente interessante. Ele tava sei lá.. limpando farelo do rosto, e eu tava achando tudo a coisa mais linda do mundo. É um sentimento maravilhoso, mas ao mesmo tempo é um sentimento horrível, por que agora a voz dele me causa coisas, e eu me vejo abrindo mão do controle completo dos meus sentimentos por outra pessoa.. Se apaixonar é dar acesso ao outro a sua parte mais vulnerável? Pra mim, pelo menos, parece que sim. Tudo pode dar errado, parece que você vai morrer, mas você não morre. Será por isso que é tão gostoso? Tipo coçar uma ferida?

Gostaria de entender mais do que eu entendo, mas preciso aceitar que nunca entenderei o suficiente. Preciso é uma palavra forte e nada convidativa. Que pena pra mim.

Sol em Capricórnio – 22 de Dezembro a 21 de Janeiro

Façamos então um desafio:

Eu escrevo sem pausas e sem roteiros por o quê?, quinze minutos seguidos? parece bom pra mim, e pra você? não consigo ouvir pelo computador, preciso manter o volume no mudo por que estou escrevendo de dentro do meu trabalho, no horário de almoço, então por favor responda através de textos. Não é a primeira vez que eu estou escrevendo de dentro do meu trabalho, apesar de que nem sempre escrevo no horário de almoço, às vezes uso os intervalos entre os aplicativos travados pra escrever, pagar contas, marcar médico, mandar mensagem pra uma amiga que tá sendo extorquida pelo proprietário do lugar onde ela mora. Eu conheço ela a pouco tempo, mas gosto muito dela como pessoa e gosto de vê-la feliz; não sei a definição dela de amizade condiz com a minha, então talvez eu não seja amigo dela, apesar dela ser minha amiga.

Às vezes eu uso o período em que os aplicativos não estão travando pra fazer coisas também, mas não fico triste não, nem sei se me sinto culpado, só sinto como se tivesse um par de olhos nas minhas costas perfurando minha nuca, ou talhando cortes lisos e profundos na carne dos meus ombros, como fazem com um bife, ou com peixe. Eu sei que fazem isso, mas eu não como bife, nem peixe; minha possível amiga também não.

Não é todo dia que eu misturo as coisas, coloco os verdes no lugar dos vermelhos; tem dias inclusive em que organizo meus afazeres com a diligência de um daqueles vídeos de life hacks das redes sociais, boto compartimentos nas gavetas, uso os tubos de papelão pra guardar os fones, penduro tudo com ganchos em fita dupla face e uma gota de cola quente. Não é todo dia que eu organizo as coisas, coloco tudo em seu devido lugar; tem dias em que eu só chego em casa, deixo as botas na entrada, penduro o casaco e o resto que se organize se quiser, não vou obrigar ninguém não.

Quando eu falo de pendurar casaco é uma metáfora, tá muito quente pra usar casaco, mas as botas ficam na entrada mesmo.

Sol em Sagitário – 23 de Novembro a 21 de Dezembro

Olha, graças a Deus que eu faço terapia, por que não é todo dia que eu tô em condição de segurar minhas bucha. Tem dias em que parece que todo o avanço de caráter que eu batalhei tanto pra conquistar se rasga em frangalhos, e eu jogo tudo na fogueira que alimenta meus vícios, meu rancor, a nojeira mais suja que eu guardo. Esse é o primeiro dos textos que eu escrevo durante a estação, por que hoje o meu sentimento é muito intenso, e eu não quero esperar que ele acabe pra eu falar dele. Quero falar enquanto sinto, descrever o que vejo aqui dentro do olho do furacão

O que eu sinto é repulsa, uma profunda decepção com a pessoa que eu vejo no espelho, uma raiva constante da voz que fala na minha cabeça. O amor próprio me abandonou, ficaram os punks mijando no meu colchão, cuspindo na minha parede, metaforicamente.

Por favor, não me diga pra fazer yoga, meu problema não é uma falta de coisas que me tragam bem estar, mas o excesso de protocolos que eu criei pra me manter em funcionamento. POR FAVOR, não me diga pra meditar, eu venho evitando o silêncio desde julho do ano passado. O que eu preciso é de uma limpeza pesada, lavar cada centímetro de pele com uma escova, o cabelo, os dentes, as sobrancelhas e principalmente os olhos.

Uma análise mais profunda poderia dizer que eu cuido tanto das minhas virtudes quanto das minhas falhas, pra manter um equilíbrio, um movimento; o que não seria uma completa mentira. Pensando também em quanto tempo eu passei me dedicando aos trabalhos de deus e a elevação espiritual, acho que eu tenho mais uns bons meses de maldade pra debitar. O problema é o cansaço que isso gera, aquele amargo na boca que não sai.

Pois então, esse foi o primeiro dos textos que eu comecei a escrever durante a estação, foi também o que mais atrasei pra terminar. Pra manter o equilíbrio.

Sol em Escorpião – 24 de Outubro a 23 de Novembro

Não me solta, vamo dar volta

Eu não tenho mais memória do silêncio na minha mente.
Qualquer resposta agora vai ter de surgir do ruído
Das barras douradas da gaiola que habito
Rangendo contra os meus dentes, corroendo minha boca
Num beijo ácido, ácido, ácido.

O sol me aquece a cara, morde minhas costas, lisérgico
Abro o olho no meio da dança só pra ver pra ver tudo rodar
E a delícia de lamber a lua, nadar na chuva
Morder a armadilha que você montou pra mim
Morder sua virilha pra você ficar esperto
Já tô ficando tonto com tanta volta no caminho
Chega dessa bobagem e escuta meu soneto:

Não me importa se você discorda do que eu to falando
Não tenho tempo pra te explicar minha situação
Mas te falando com todo o meu respeito
É muito fácil concordar com a própria opinião.

caralho maluco boto fé

Sol em Libra – 23 de Setembro a 23 de Outubro

Acaba mais uma estação, e eu não sei bem o que dizer sobre isso; então a partir de agora só vou me comunicar através de absurdos. Têm dias que é um passo pra frente e dois pra trás, nada contra mas eu odeio. Tem dia que são dois pra lá dois pra cá, e eu me embriagando de um uísque com guaraná. Esse são mais legais, apesar de que se embriagar é um caminho sem volta. Ou melhor, geralmente tem volta, mas é uma volta por cima, tem que contornar todo o caminho pra voltar de onde veio, e enquanto você não volta tudo fica turvo, é como se uma névoa grossa tomasse conta da vida… complicado, bicha. Pois sim, nos vens e vais acho que o mais importante é se cuidar pra não vires mais do que vais, mas se quiseres virdes também fica à vontades; quem sou eu pra te impedires?

Quisera eu poder impedir alguma coisa, quisera eu! Se pudesse impedia a humanidade de ter existido. Não me leva a mal não, não tenho nada contra você, mas se pudesse escolher teriam sido os sapos a dominar o mundo, são bem mais interessantes que os humanos. O problema é que os sapos tem uma resistência péssima pra climas secos: os bicho conseguem viver 3, 4 meses congelados mas não aguentam cinco minutos sem água.. paciência, né?, a humanidade até que é simpática às vezes, podia ser bem pior.

Fico feliz que a primavera chegou, me sinto à vontade sem dever nada pra ninguém. Tem sol, tá tudo mais leve, mais quente, mais macio, coisa boa. Mas também tem frio, tem chuva, tem lama; mas lama é bom, por que sapo gosta de lama, e apesar de ser suja e fedida é cheia de nutrientes. Tô contente, tava cansado do inverno, com todo o respeito, sei que é importante mas é muito frio; foi legal pra fazer a linha instrospectiva e tudo mais mas eu já queria sair daquele buraco. Tô querendo dar uma renovada na vida, trocar as cores, as estampas.. inventar umas coisa nova quem sabes, e eu sabia que a primavera iria me trazer esses novos ares (por que eu vejo o futuro). É alegria, espontaneidade, fertilidade.

Fico pensando que a fertilidade venha de acumular coisas mortas, deixar com que elas apodreçam entre as dobras dos tecidos, colher mudas por onde passar e deixar que o vento traga sementes. Viver é um processo de morrer, já falei disso aqui antes. Morrer é um processo de olhar pro passado e ver que ele não existe mais no futuro. Passado é um processo de deixar passar, e futuro é um processo de olhar e ver o que ainda não passou. Passarão, passarinho.

Passa em casa qualquer dia desses, tem muitos sapos na vizinhança.