MORCEGO
“A hora chegou!” exclama o Mago, resoluto. “As estrelas se alinharam no céu de outubro.. as nuvens são profundas e espessas.. A hora chegou! Posso sentir nos meus pêlos, nos meus ossos, no forro da minha boca.” Ele entra em seu quarto e, cantarolando, empilha objetos sobre sua mesa de pedra: cogumelos, barro fresco, um dente de chumbo, ainda com a raiz, flores de vidro, e um enorme galo, talhado em safira vermelho profundo. Ele se olha no espelho e, com destreza, desenha linhas coloridas que contornam seus olhos, se abrem em labaredas e se encontram em sua testa. “Há tanto tempo eu espero esse momento, tantos caminhos cruzei para possuir esse feitiço; e hoje meu desejo será finalmente realizado.”
“Acordem, meus animais da noite! Chegou a hora! Sapo, me traga uma libélula de fogo. Aranha, me faça uma garrafa de seda prateada. Coruja, me traga dióxido de salamandra; e Morcego, para você tenho uma tarefa muito especial. Vê esse frasco? Pegue-o, vá até a torre mais alta e traga-o cheio de sulfato de lua cheia! Vão, meu feitiço os espera!”
O Mago então caminha até a mesa, tira sua túnica preta e verte, sobre a mesa, um óleo translúcido e viscoso, de aroma metálico. Depois se debruça sobre a pedra, deslizando o peito nu sobre a superfície enquanto segura suas arestas, que começam a emitir um brilho fantasmagórico de um sensual tom de verde.
BRILHANTE
Sentado nas telhas da torre mais alta, o morcego olha o enorme astro que paira no céu, estupefato, “Oh, Lua, luminar da noite, você é tão linda que mesmo um cego como eu consegue ver seu brilho e sentir sua graça! Por quantas noites voei na sua luz e ainda assim, agora, sinto como se fosse sucumbir em pedaços sob a sua presença; desejando, mesmo que brevemente, poder te tocar”. Inundado pela emoção, ele desata em um agudo choro “Ah, Lua, dama celeste de compaixão e graça. Você que nos ilumina e inspira, você que é linda e magnânima, brilhante e perfumada, consegue me ouvir?”. Ouvindo o lamento, a Lua se aproxima para consolá-lo. “Meu querido morcego, consigo sim te ouvir, por que você chora?” “Deusa, eu quero te tocar! Não quero mais ser um morcego, minúsculo e fraco, eu te amo. Me transforme em um satélite eterno, de sabedoria sem fim, para eu lhe beijar e dançar no cosmos, pra sempre com você!”
A Lua acha graça da inocência do morcego. “Tão carinhoso.. Eu não posso lhe fazer isso, meu querido, por maior que seja seu amor.” “Por quê? Por que eu sou cego? Por que sou feio?” “Eu não posso fazer isso, lindo morcego, nem por você nem por ninguém, porque isso não seria uma benção, e sim uma maldição.” “Por que diz isso, Lua? Quem de nós não gostaria de ter o seu brilho, sua glória serena, seu poder?” A Lua suspira, olhando para o curioso mundo que se desenrola em sua frente, profundo em suas águas, afiado em suas montanhas. “Vocês, mortais, sempre querem aquilo que não lhes faz bem.”
“Eu brilho, sim, mas porque não tenho outra escolha. Minha jornada se estende pela eternidade, vaguei sozinha no vazio do universo por muito tempo, antes de chegar aqui, nessa abóbada azul onde você me contemplam hoje; vaguei pelo fogo e pelo nada. Nem sempre fui assim, mas a eternidade me transformou, e pago até hoje por tudo aquilo que fiz.. Até hoje eu vejo meu reflexo no mar, e sinto a dor de não poder me banhar. Eu nunca mais poderei ser tocada.”, ela suspira, com candura, e conclui “Eu abri mão da vida para viver a eternidade”.
O morcego, enxugando as lágrimas, pergunta “Então.. por que você fez isso?” “Por vocês.” “Mas por quê?” o morcego insiste. “Porque eu sou a Lua. Eu amo vocês, e vocês precisam do meu amor”, conclui, sorridente. O morcego sorri também.
“Mas você veio me pedir outra coisa, não?” a Lua diz, apontando para o frasco pendurado no pescoço do morcego. “Ah, é verdade!”ele recobra a atenção e estende o frasco para a lua. “Pode me dar um pouco de sulfato de lua cheia?” ele encara o chão envergonhado, “Meu mestre está fazendo um feitiço pra invocar-” a Lua o interrompe, rindo, “Eu prefiro não saber o que o seu mestre está fazendo”, e com um estalar de dedos, enche o frasco com um pó prateado e brilhante. “Agora feche os olhos, Morcego”, e derrama sobre ele uma única gota de um finíssimo óleo. “O que é isso?” “Perfume de Pedra doce, um presente, pelo seu carinho. Agora vá! Seu mestre te espera.” O morcego se despede e vai embora, dando piruetas no ar enquanto voa.
ETERNO
“Vocês precisam do meu amor?” No vasto cosmos, Marte retruca, “Você é manipuladora, Lua. Fala isso só para fingir que é fonte da felicidade dos mortais. Ninguém precisa do seu amor.” A presença dele é intimidadora, mas não parece ter esse efeito sobre a Lua. “Fale comigo com um pouco mais de respeito, Marte, ou fique em silêncio” e provoca, “Honestamente, irmão, às vezes acho que o que você tem é inveja da admiração que sentem por mim.” “Ha! Inveja de uma admiração falsa? Não me faça rir.. Você lhes fala de amor e sacrifício como se fosse capaz de sentir isso por qualquer um desses mortais, mas sabe como eu ou qualquer outro que suas existências não passam de espirros do tempo.” diz Marte, resoluto por saber que, naquele momento, não fala com rancor, mas com verdade – não vê o menor sentido em toda a imagem de devoção que a Lua insiste em nutrir – e finaliza, “Você não os ama.”
A Lua suspira, incólume. “Mas eles me amam, e eu aceito ser amada. É disso que eles precisam, Marte, de alguém que os escute. Sei que escutar não é seu forte, mas tente entender..” ela ri, e continua, “Eu não tenho o menor interesse em ser tocada, ou em tomar banho de rio.. mas isso interessa a eles, e eu os vejo. Eles me amam, eu apenas reflito esse amor.”
“Mas nunca poderá amá-los.” Marte insiste.
“Nunca poderei amá-los. Não saberia nem por onde começar. Mas, ainda assim, continuarei sendo amada. É esse o preço que pago, e pagarei por toda a eternidade.”
Boa noite pessoal!
Esse conto veio de um exercício de criatividade que eu e mais dois amigos fizemos. A gente sorteou três palavras e então tinha que criar algo que incorporasse essas palavras – Morcego, Brilhante e Eterno, se não ficou claro até agora.
Primeiro pensei na conversa entre o morcego e a Lua, mas achei muito parecido com outras coisas que já escrevi. Descobri que dois seres personificados conversando sobre a vida é um lugar comum da minha escrita, putz. Então tive essa ideia de dividir o conto em três partes, cada uma delas com um tom, um cenário e uma atmosfera própria; algo que despistasse o leitor, e deixasse você com três histórias incompletas e nenhuma lição de moral.
O que eu mais gostei foi de escrever com essa linguagem teatral, em que o narrador fala muito pouco, e o tom da cena é dado quase exclusivamente pelos personagens.
Obrigado por ler!














