A Busca

escrevo pra te dizer que estou te substituindo
que encontrei essa necessidade
(descrita em uma carta
(a mim endereçada
(como esta é à você
)))
que substituí sua voz por podcasts
e thrillers psicológicos
que comprei uma nova calça
(pra substituir aquela
com a qual você ficou)
que comprei novos livros
(pra ocupar o espaço
dos que você levou)
que substituí sua voz por manjericão fresco
e seu sorriso por manteiga na chapa
e as flores roxas de uma árvore vizinha
que substituí seu cheiro
por encontros com amigos
por drinks mas não por bares
por mesas recém lustradas
que substituí seus beijos
por memórias de infância
e autores nacionais
(que escrevem sobre amor
(como eu um dia escrevi
(mas jurei não mais escrever
(portanto não escrevo
))))
que substituí sua voz pela minha própria
que substituí seu corpo
por banhos gelados
e quilômetros de bicicleta
e esforços sobrehumanos
e pela luz do sol
(mas o sol vem sendo raro
(e nem de longe o suficiente
(então me esforço ainda mais
(e às vezes perco o sono
(então continuo enterrando coisas
(mas não vou por muito tempo
(pois não devo demorar
(pra te substituir por inteiro
(pois o vazio não é tão grande
(só do tamanho de uma cama
(de solteiro como a que dormimos
(por todas aquelas noites
(e não do tamanho das noites
(para minha próprio sorte
(o vazio não é do tamanho das noites
(não mais
))))))))))))))))

com amor.

10 álbuns pra saudar o Outono

O Outono nos toma a luz; os dias se tornam cada vez mais curtos, e a noite começa a tomar conta; ainda assim, o Outono é a única estação civilizada. Mesmo sendo uma sentença de transformação, mudança e perda, o Outono não é bruto; ele conforta, colore, e entrega os frutos devidos.

As novas estações quase sempre chegam sem muito alarde; a paisagem ainda não mudou, o clima também não, não há espetáculo no céu, nem grandes festivais pagãos. De todo modo, elas chegam, e nós reconhecemos: lavamos roupas e armários, fazemos planos, e sentimos aquela tensão nos dentes. Por mais que ainda leve tempo pra fazer seu serviço, nós sabemos que a mudança já está em ação. Pensando em como dar mais forma pra esses pequenos rituais contemporâneos, me propus a criar essa lista.

Queria que essa músicas pro outono não fossem escolhidas pensando nas folhas laranjas empilhadas no pátio de casa, e pedi ajuda no instagram pra que as pessoas me sugerissem imagens, temas e músicas que elas associassem ao Outono; tentando descascar essa camada homogênea, e ver como é o outono real que existe por trás.

Então em resumo, como funcionou:

  • Pelo menos 3 dos 10 precisavam ser brasileiros
  • Tentei não ter mais que dois do mesmo gênero ou nicho
  • Pra cada álbum eu propus uma nova metáfora que ilustrasse os sentimentos, imaginários, enfim… essa pulsão que compõe o outono. São imagens sugeridas pelas músicas e pelas pessoas que conversaram comigo sobre isso, pra compor, quem sabe, um novo repertório.

Muito obrigade para: Alexandre, Arthur, Augusto, Bruna, Catarina, Desiré, João e Claudete, Lucas, duas Marianas, Mateus, Nadyne, Nicolas, Pipis e Rafa. Eu não botei todas as indicações aqui, mas ouvi todas e usei tudo como massa pra criar essa lista, espero que vocês gostem.

Então vamo lá:


Arcade Fire – The Suburbs

No centro antigo, um grupo de jovens de casacos e chapéus quentes usa palavras que ainda não entendem pra falar de coisas que ainda não viveram.

The Suburbs é um disco sobre memória e o poder de permanência que a memória tem, frente à inevitável impermanência do resto do mundo; sobre estruturas que nos oprimem enquanto nos criam, sobre enfrentar essas estruturas na rebeldia da juventude, e sobre entender, enfim, que essa batalha já começou perdida. Ainda assim, tudo valeu a pena. Aqui, a beleza e tristeza de crescer são retratadas com pianos, rabecas e percussões de fanfarra. Pop-barroco? Art-rock? Indie? Não sei como chamar, mas é dramático e muito bonito.

Por que é um álbum de outono?
Pela carga de nostalgia e saudade das letras e melodias. É um álbum que tá o tempo todo querendo voltar ao passado, mudar o passado ou ressignificar o passado.


Jessic Pratt – Quiet Signs

Numa manhã de março, uma tempestade repentina lava a cidade, alheia à pressa e aos compromissos humanos.

Nos poucos minutos de duração do disco, Jessica Pratt explora pouquíssimas melodias e construções. Com um só gênero e ritmo, um folk mínimo, a artista desenvolve uma dimensão com a própria arquitetura; são saguões onde ecoam violões, escadarias feitas de piano, corredores feitos de silêncio e uma cama confortável onde a cantora assovia canções de ninar. Pode parecer repetitivo num primeiro momento, mas é nesse marasmo que se revelam os detalhes cuidadosos das composições.

Por que é um álbum de outono?
Pelo carinho e aconchego que permeiam cada música.


Milton Nascimento e Lô Borges – Clube da Esquina 1

Encostado numa parede de terracota, um homem de meia-idade reflete sobre a inevitabilidade da morte.

Bom, esse disco é um clássico da MPB clássica; combina as composições labirínticas do Lô Borges com voz angelical do Milton Nascimento – e por angelical eu quero dizer que é linda mas também ultrasônica e capaz de matar um ser humano desavisado. As melodias são soturnas e sonhadoras, e os ritmos transitam entre a bossa-nova, o rock psicodélico, o jazz e o samba, às vezes lentos e focados no vocal, às vezes acelerados, numa profusão de instrumentos.

Por que é um álbum de outono?
Porque tem cheiro de terra e madeira, do nascer do sol e das primeiras horas da noite no interior.


Exuma – Exuma

As entranhas de uma abóbora cozinham em um caldeirão, e o vento que bate as janelas carrega o cheiro de curry para fora.

Exuma era o nome de um músico das Bahamas; mas também foi o nome de seu grupo musical, do seus dois primeiros discos e da sua música de maior sucesso. Essa repetição curiosa ganha muito sentido quando você ouve as músicas de Exuma, e percebe a natureza ritualística, cíclica e cabal desse álbum. Percussões afro, corais fervorosos e efeitos sonoros se unem para criar um calypso-folk enérgico e dançante, recheado de imagens mágicas e anímicas de zumbis e do juízo final. Muito bonito e também muito político.

Por que é um álbum de outono?
Porque retrata a morte como algo vivo, fértil e quente.


Little Simz – Sometimes I Might Be Introvert

Uma brilhante epifania te toma de assombro, mas ela evapora no minuto seguinte, e você volta a arrumar os armários.

Épico desde o primeiro minuto, Sometimes I Might Be Introvert costura o rap político e afiado de Little Simz com instrumentações orquestrais, violinos, sopros e corais melódicos, às vezes intensos e às vezes delicados. Em meio a essa estrutura, outras sonoridades aparecem para colorir o álbum, em especial o R&B, mas também Afrobeat, Soul e Pop. Contrapondo experiências individuais a ânsias coletivas, Little Simz narra sua jornada heróica e inspiradora, compartilhando as lições que aprende no caminho.

Por que é um álbum de outono?
Porque é honesto e realista sem ser deprimente; fala sobre lutar e crescer, mas sem deixar de se tratar com carinho.

MASM – Motelwave

No quarto de um motel, segredos são confessados. Pelo vão da porta, em um corredor mal iluminado, alguém escuta o que não devia.

O Motelwave na verdade é um EP, mas tem a proposta criativa e a execução de um álbum completo. Com uma atmosfera cinematográfica e soturna, as músicas mesclam elementos do jazz e do vaporwave, as letras são obscuras e sugestivas, e a voz que as canta é grave e sussurrante. O resultado final é um som tão cremoso e sensual que é quase satírico, mas muito refinado e convidativo, gostosíssimo de se ouvir; é synthpop, música de sexo dos anos 80, e trilha sonora pros turnos da madrugada.

Por que é um álbum de outono?
Porque mistura tristeza, tesão e mistério; três elementos que, pra mim, são a essência dessa estação.




BROCKHAMPTON – GINGER

Num aeroporto, uma despedida.

Apesar de ser pontuado por menções a rancor, arrependimento e outras feridas, GINGER também é feito de cura, afeto e esperança. A produção eletrônica que acompanha os versos do grupo traz ecos de pop e R&B, aparando as arestas das batidas de trap e grime que dão o tom do álbum; além de colorir pontualmente a paisagem com uma paleta extensa de samples de jazz, blues, bossa, folk e rock progressivo. Canções confortáveis para momentos solitários, em cidades de concreto e aço.

Por que é um álbum de outono?
É um álbum de sonoridade sólida e fria, mas também leve e iluminada – por mais que às vezes as nuvens cubram o céu.




Thiago Petit – Mal dos Trópicos

Um pássaro colorido pousa em uma mesa de madeira, e canta enquanto mordisca as ameixas de uma cesta

Mal dos trópicos é um disco que flui de forma orquestral, mas que bate com a pancada seca do trip-hop; de forma muito literal, pela mistura de instrumentos clássicos com batidas eletrônicas, mas também de forma imagética. Metáforas eruditas e contemporâneas são processadas juntas no liquidificador, e sobram pedaços de Grécia antiga boiando numa São Paulo noturna. O resultado é soturno, sensual e sinfônico, muito dramático, muito misterioso e terrivelmente homoerótico.

Por que é um álbum de outono?
Porque tem o calor e a fartura da música brasileira, mas também tem algo mais se escondendo nas sombras – algo antigo, dolorido e sinistro.



Jefre Cantu-Ledesma – In Summer

Com o passar tempo, a memória que era dolorida se torna um lugar de conforto.

In Summer é um álbum de noise – as músicas constroem paredes de som densas e ruidosas, e os primeiros segundos desse curto disco já são uma sobrecarga sonora. O silêncio, porém, também é fundamental nesse som, bem como a delicadeza. Usando sintetizadores, sons ambientes, e uma camada agressiva de eco e drone, Jefre cria melodias coloridas que evocam memórias estranhas e inconsistentes. O próprio artista define o disco como um catálogo de fotografias de pessoas e lugares (tá escrito na capa), e é possível sentir isso nas músicas.

Por que é um álbum de outono?
Porque é terrestre, material, evocativo, dissonante, imperfeito e belo.



Agnes Obel – Late Night Tales

Uma canoa atravessa o rio, abrindo caminho entre a neblina da manhã.

A curadoria de Agnes Obel pro projeto Late Night Tales traz muito dos pianos melancólicos que ela produz, mas também referências de músicas clássicas, folclóricas e blues. Tem Nina Simone e Quarteto em Cy entre as muitas vozes femininas, composições atmosféricas e trilhas sonoras vindas de diversos países, grande parte de décadas atrás. Esses temas coexistem pelos ritmos lentos e melodias cadenciadas que compartilham. Como uma história das mil e uma noites, você escorre, delirante, entre paisagens desertas, florestas úmidas e bares noturnos. Se for ouvir no spotify, escute o mix completo, não as músicas individuais.

Por que é um álbum de outono?
Por ser orgânico, sussurrante, e um tanto quanto críptico.


Não tenho mais o que falar, nem quero tomar mais tempo, espero que goste.

Me conta que álbum tem a cara do outono pra você, e me conta porquê. Aproveite essa estação, ouça música boa, combata o capitalismo e durma com os anjos.

Promoção? E pra mocinha?

Querido Angeloni,

Vocês já me conhecem, sou seu cliente há pelo menos 9 anos, quando me mudei para essa cidade. É verdade que no começo da minha vida aqui eu comprei muito mais no Comper da Trindade, porque era muito mais perto da minha casa e eu era um pobre estudante sem carro e sem salário. É verdade também que nos anos que eu morei na Palhoça, eu comprei  muito mais no Giassi, porque, mesmo agora tendo salário, lá era muito mais barato, então a culpa é de vocês, honestamente. De qualquer modo, não somente uma mas duas vezes eu morei ao lado de um dos seus supermercados e fui cliente frequente; hoje já faz mais de um ano que moro aqui no centro e vou religiosamente fazer minhas compras da semana aí, então peço que vocês percebam que não sou qualquer um aqui falando e leiam esse email com carinho.

A razão do meu contato é muito simples e objetiva. Em todas as minhas últimas idas ao supermercado, percebi que vocês fizeram promoção de cerveja, de vinho, e até de suco Maguary, mas nenhuma promoção sequer de destilados, nenhuma vodka, nenhum gin, nenhuma tequila, nem sequer uma cachaça. O que é isso? É um lobby? É um statement? É um posicionamento político-ideológico?

Vou deixar uma coisa bem clara aqui, Angeloni: isso é lgbtfobia, pura e simples. Vou explicar.

Imagine uma balada socada de homossexuais afeminadas. O que elas estão segurando na mão? Uma Budweiser? Um tinto seco? Não. Elas estão segurando um copinho tubular, um drink com pelo menos duas cores, com açúcar na borda e uma casquinha de limão espiralada, talvez com um canudo quilométrico, se elas não têm consciência ambiental, ou se passaram gloss…

Mas onde estão essas afeminadas agora, que as baladas estão proibidas por conta de um vírus mortal? Nas baladas clandestinas, sim, infelizmente temos muito que evoluir enquanto classe, mas e as que não estão? As que seguram esse colapso sanitário e social nos seus delicados e hidratados braços? As que acordam de madrugada suando frio porque há meses não abraçam uma desconhecida, não fumam um cigarro mentolado? Que alegria elas têm nesse cataclisma quando não podem sequer fazer um drink em casa?

Sim, é claro que a gente compra a cerveja da promoção. Nós não somos estereótipos, nós somos diversidade, temos gostos complexos, somos livres acima de tudo, e vivemos no Brasil, vamos beber o que você botar na nossa frente. E sim, é provável que a gente até prefira comprar um vinho, porque um gin é muito caro, e porque fazer drinks envolve toda uma preparação que nossos cérebros acelerados têm dificuldade de conceber, mas como você acha que a gente se sente quando chegamos no supermercado e mais uma vez vemos a santificação da Heineken, com seus motivos de futebol estampados no fardo? Que estão nos dando boas vindas? Não. Pelo contrário.

Portanto venho aqui reivindicar, enquanto consumidor, que vocês aí da direção façam uma promoção de tequila. A tequila é um destilado simples, que não exige uma preparação complexa, mas que aquece, e que é capaz de teletransportar quem a toma diretamente para outra realidade, uma realidade melhor e menos deprimente, possivelmente mais nua. Isso não só vai reposicionar sua marca, que vem perdendo espaço entre LGBTQs para o Imperatriz Gourmet, mas também vai movimentar a venda de limões, fortalecendo a imunidade dessa população historicamente vulnerabilizada.

Por último gostaria de agradecer à sua funcionária Renata, que me deu desconto num creme dental que estava com preço cheio, porque o outro da promoção já tinha acabado.

Com carinho.


Boa noite, consumidores conscientes!

Esse foi o primeiro texto que eu criei pra o Mundial de Escritura, o tema era “Um email que você não enviaria”, só que nesse caso em acabei enviando. Hmm…

Se você gostou envia pra alguém que vai gostar também! Ou me chama pra tomar uma tequila, sei lá, ajude uma mana.

Beijo!

Francisco e Diego

– Põe a perna aqui.

Francisco obedece. Era uma posição desconfortável para ele, mas estava disposto a fazer para agradar Diego – quem sabe o tesão do outro acendesse o tesão dele. Isso é, acendesse de novo, porque parecia que estava ali antes, mas agora parece que não está mais, o que é engraçado, porque Diego é um baita dum gostoso.

– Caralho, você é tão grande.

Diego dá um sorriso malandro, mas esconde que aquilo ressoa num lugar desconfortável. Ele não queria ser o pirocão alfa, não queria ser grande, queria ser o suficiente para Francisco, nem mais nem menos. Também achava Francisco um baita dum gostoso, em especial naquela posição, quando cheirava sua nuca macia, e via só um perfil dos seus olhos; adorava suas caras e bocas, as texturas do seu corpo e os barulhos que ele fazia. Adorava seu nome: Francisco. Sentia como se estivesse comendo alguém importante.

– Tá gostando?

Francisco geme que sim. Fecha os olhos. Tenta sentir o movimento com o tato ao invés da mente. Ele era grande mesmo, talvez um dos maiores paus com quem já transou. Já encontrou alguns maiores por aí, mas não encarou. Se tivesse encontrado Diego em um aplicativo qualquer ou no meio de uma noitada, provavelmente teria pagado um boquete e ficado por isso; mas aquela tensão acumulada entre o balcão de atendimento, as conversas trocadas em minutos roubados do seu horário de almoço, e o jeito com que ele beijou primeiro seu rosto inteiro antes da boca… Diego mexeu com ele. Francisco estava excitado, envolvido e curioso. Depois da primeira vez foi mais fácil encarar o pirocão de novo.

– Vamos tentar uma posição nova?

Diego ouve atentamente a explicação, tentando fazer os cálculos de força, vetor, velocidade, movimento uniforme e movimento uniformemente variável. Ele se perguntava se Francisco gostou do seu perfume, da vela, dos lençóis novos. Francisco parece ter gostado da posição. Ele sempre inventava uma coisa diferente, se não um encaixe, um lugar, um estímulo, uma narrativa. Uma vez transaram sem tirar nenhuma peça de roupa, seus corpos encontrando um caminho para a penetração através de um labirinto de sobreposições; foi um dia muito divertido, ele se lembra do cheiro das roupas se misturando ao de suor.

– Ah, como você é safado.

Francisco rebola e torce o corpo em todas as doze dimensões do quarto, achando graça na súbita expressão que Diego faz. Ele parece ter sido pego de surpresa, parece até estar um pouco assustado com quão gostoso é o movimento. Francisco se diverte, tomado agora por um tesão ainda maior que o do começo. Já tinha feito de quase tudo com Diego; sentou e comeu, bateu e apanhou, amarrou e pendurou, usou todos os condimentos da geladeira, todos os materiais de escritório e o anão de cerâmica que ficava no jardim. Mas era novo vê-lo assim, estupefato, vulnerável até.

– Ah! Sim! SIM!

Diego deixa o corpo ser dominado pelo homem que tanto o fascina, e o observa, de baixo, de lado, do avesso. Que força magnética é essa que ele emana? Por que é tão difícil pensar quando está com ele? Diego sente pulsos elétricos que vão dos dedões aos dentes. Sua mandíbula treme. Francisco não é desse mundo, não pode ser. Como pode um homem o intimidar tanto, e ao mesmo lhe trazer tanta admiração? Ele faz Diego querer vestir todas as armaduras, só para ver Francisco tirá-las.

– Ah, Francisco, que delícia.

– Caralho, Diego, eu não vou aguentar.

Os dois gozam, quase juntos. Diego fica estático por alguns segundos, olhando nos olhos de Francisco. Francisco o olha de volta, até que seu corpo inteiro amolece, e ele cai com as têmporas em seu peito, e beija seu pescoço. O perfume que ele usa é muito gostoso, mesmo depois de ter suado tanto. Diego passa os braços em seu corpo e o vira de costas na cama, a força voltando de súbito. Ele beija o rapaz profundamente no rosto, na boca, nas canelas, movimentando o quadril, que permanece colado ao quadril do outro. Que homem macio ele é. Francisco ri, o beija de volta, e acha graça nos sons que o rapaz faz.

Eles tomam um banho e se deitam abraçados. Diego pensa que talvez esteja apaixonado. Francisco calcula quanto peso aguentaria o ventilador de teto.


Oi galerinha sensual, esse foi mais um conto escrito durante o Mundial de Escritura. Tinha até me esquecido, mas aparentemnte a tarefa era pra escrever sobre um relacionamento prestes a ruir, quando já se sabe que vai acabar, mas não se concretizou o fato. Engraçado que, se na época eu via essa história assim, hoje eu não sinto que ela tá falando de um relacionamento prestes a acabar. Não sei quanto tempo esses dois têm pela frente, mas pra mim eles ainda se pegam por uns bons meses.

Eu me lembro de no dia ter me interessado pra valer por escrever algo que fosse explicitamente sexual. Eu tinha na minha equipe o meu amigo Luciano, que faz umas descrições eróticas muito naturais nos seus escritos, e isso me inspirou a fazer algo assim também. Foi bem divertido.

Marinalva e o vento

Marinalva forrava a cama, assobiando uma música que ela mesma inventou. Ô mulher atarefada que ela era. Era lavação de roupa, limpação de casa, fazeção de comida e assobiação de música, tudo ao mesmo tempo. A cama era a última parte da limpeza, mas se engana quem acha que ela vai parar depois disso, porque depois que ela comesse o almoço e lavasse a louça, ia desfiar o frango cozido que tava esfriando na panela e começar a preparar os pastéis e as empadas. Hoje era dia de festa na igreja e todo mundo era doido pela sua mágica de cozinheira, ela tava empolgada pra vender tudo. “Ai que é hoje!”

Foi quando veio um vento, um baita vento forte, soprando largo e soprando grosso, levantando a saia da Marinalva e o lençol que ela colocava na cama. “Uai, quê isso?” Ela foi pro outro lado da cama, enfiou o lençol por baixo do colchão. “Vento estranho, nem é época de dar vento assim…”  mas tinha algo ainda mais diferente, um cheiro no vento, um cheiro diferente. Soprou o ventão de novo, rodopiou os cabelinho da testa dela, que não tinham tamanho pra ficar preso. “Ó lá o cheiro de novo… uai…”

Será que é o almoço que queimou? Mas não é possível, ela sabia o tempo da comida cozinhar. Foi pra cozinha, cheirou as panelas, o cheiro tava bom, mas não era delas não, era cheiro diferente, desses que você não sente todo dia. O vento bufou de novo, passou pela cozinha, apagou tudo as bocas do fogão e abriu a porta. “Valei minha nossa sinhora!” As janelas de dobradiça escancararam-se, as cortinas balançavam igual meninas sacudindo a barra da saia. A casa se encheu do aroma, Marinalva tragou fundo. Era cheiro de coisa nova!

Ela foi pra fora, não sei se porque quis ou porque o vento levou, mas ela foi. Tava achando graça já no vento, onde já se viu? Do lado de fora ela observou a casa. Ô casinha engraçada que ela tinha, parecia bonequinha de barro, toda pintada de branco, a janela e a porta azul igual o mar, que ela nunca conheceu, mas já cheirou uma vez, quando a moça mais bonita que ela viu na vida tirou a rolha da garrafinha que carregava pra lá e pra cá, e botou assim pertinho do nariz dela. 

Aaaaaaaaaah… ô moça que era doida pelo mar, ela falava que nasceu do lado dele, ouvindo a onda bater na areia, Marinalva acreditava, porque a pele dela brilhava dourado igual a areia. Ela dizia que ia ter que voltar pro mar um dia, que ela nasceu lá e que por isso a vida toda ia precisar voltar pro mar de vez em quando, mas que depois que conheceu a Marinalva também ia ter que voltar pra ela, a vida toda. Marinalva plantou um monte de roseira no pé da janela quando ela voltou pro mar, disse que ia deixar a casa florida pra quando ela voltasse.

A ventania soprou de novo. Veio do outro lado da casa, passando por baixo das pernas dela, deu a volta no pé de goiaba e foi dar na roseira. A roseira chacoalhou do calcanhar até a cabeça, e voou pétala pra tudo que é lado. Marinalva abriu a boca. “É ela! É meu amor!” O vento rodopiou, a roseira dançou, jogando flor pra cima, Marinalva pulou e gritou. O sopro balançou o varal e arrancou o lençol, que saiu voando. Ela foi atrás do lençol, e do vento, dando risada.

Soprou na estrada, no toco de árvore onde ela roubou um beijo da moça mais bonita que ela viu na vida, desceu a ribanceira, passou na figueira onde elas iam deitar no final de semana, o lençol deu a volta na Marinalva, ela fingiu que era um vestido, abraçou, beijou. “É meu amor, é meu amor!” Depois soprou na copa das árvores, os pássaros bateram asa, fizeram cerimônia no céu e voltaram pra se abraçar nos galhos; soprou na plantação, e era semente voando que não acabava mais; soprou no cupinzal e fez o ar ficar todo vermelho de terra, soprou na beira do rio e carregou o canto do sapo. 

Marinalva voou com o vento até que não aguentou mais, aterrissou dando cambalhota na grama, deitou com os braços abertos, olhando o céu. Credo, que alegria! 

Ela chorou, beijou a terra, agradeceu. Agora precisava voltar pra casa, tinha muita coisa pra fazer. Tinha que lavar o cabelo e passar perfume. Tinha que botar a roupa  mais bonita. Tinha que colher mexerica pra fazer um bolo. Hoje não ia mais vender salgado na festa, e as pessoas iam perguntar “Ué, cadê Marinalva com as empada?”, iam achar estranho porque ela não era de perder a hora, mas as crianças, atentas que só elas, iam falar “Hoje ela não vem mais, o amor dela voltou.”, “Como é que cê sabe disso menino?”, “O vento falou uai.” 

Marinalva levantou e bateu a poeira do vestido, começando o trajeto de volta pra casa.

Quando o amor chegou, encontrou a casa vazia, o almoço pronto, e a cama cheia de flor.

Sai dessa, princesa!

O gato apoiado no balcão parecia estar tendo um dos piores dias da sua vida, e isso não é algo que eles costumam transparecer. Ele desce do balcão e se esfrega na sua perna, de um lado, do outro, depois rola no chão mostrando a barriga, com a expressão imóvel, burocrática. Você leva a mão até ele pra fazer um carinho, e assim que encosta ele se desvencilha e pula de novo no balcão. A vendedora surge do corredor.

– Oieeee, seja muito bem vinda à Sai dessa, princesa! A livraria da positividade, potência e paz. – Ela faz um movimento com as mãos para cada palavra; um braço forte em “positividade”, dois símbolos da paz com os dedos em “potência”, e as mãos sobre o queixo em “paz”; o que te parece um pouco fora de ordem. – Aqui não tem problema que você não possa resolver, isso mesmo, você mesma! Temos todos os livros de auto-ajuda que você imaginar para voooocêeeee – ela gira nos calcanhares e para com os braços abertos, atrás do gato – ser feliz!

– Miau – O gato pontua.

– Oi, eu liguei pra cá mais cedo, eu tô com depressão. – Você responde

– Sai dessa, princesa! – Ela balança a mão na sua frente e ri. Fica uns segundos sorrindo em silêncio e depois começa a mexer embaixo do balcão – Vamos ver, vamos ver… Ah, achei: Não consegue levantar da cama, só consegue dormir depois de se masturbar e se sente um lixo, faz uma semana que tá jantando batata smiles. É você né?

– Sim – você tenta esconder o rosto com as próprias mãos, olhando se não tem ninguém passando.

– Que maravilha! Eu separei esses três livros aqui pra você, vamos lá? “TIRE A MÃO DA VIRILHA E BOTE A MÃO NA CONSCIÊNCIA – Sete técnicas para direcionar sua libido de forma produtiva e aprofundar a culpa católica.” Ai esse daqui é IN-CRÍ-VEL! É de um autor que costumava ser viciado em pornografia, até que desenvolveu túnel carpal e mudou de vida.

Ela gesticula cada duas palavras das frases, o que rapidamente se torna bastante obsceno.

– Hm, entendi… Então eu não acho que seja tanto essa a questão, eu não tô assistindo pornografia na verdade, é mais a questão da depressão mesmo eu acho… Antigamente eu me masturbava e me sentia feliz, sabe? Era excitante. Acho que eu tô só buscando por algum fiapo daquele prazer.

O gato tosse.

– Hmmmm, fiapo de prazer? Parece que eu li sua mente então! – Ela te entrega um livro chamado FIAPOS DE PRAZER: Como forçar seu metabolismo a se sentir satisfeito mesmo quando a sua vida está um desastre e o mundo vive um colapso climático (Versão Ilustrada).

– Essa autora é um GÊNIO! Ela contraiu… um câncer nas… – a vendedora bota a mão sobre os olhos e força um choro – ela contraiu um câncer nas mechas, e os médicos disseram que ela teria que cortar na altura do ombro – ela funga e enxuga as lágrimas – mas ela decidiu olhar pelo lado positivo, e foi assim que ela repicou a franja.

Um alarme toca no relógio. O gato abre os olhos e pula do balcão.

– Vou pro meu intervalo, Margarete. – Ele avisa enquanto sai pela porta.

– COMPRA UM MAÇO DE DERBY PRA MIM. – Ela grita, e depois volta a olhar pra você sorrindo. – E aí, vamos levar?

– Olha só, talvez eu não tenha deixado explícito no telefone. Meu problema não é meu cabelo. Quer dizer, eu cansei um pouco desse caimento, mas não tem o que eu faça pra dar volume, e não sei, talvez seja a cor… ENFIM, a questão é maior que isso, moça. Eu não tô bem, não tô triste, não tô entendiada, eu tô com depressão, tô tomando remédio todo dia – você tira uma cartela laranja da bolsa – É Dorflex na verdade, eu tenho um pouco de medo de psiquiatra… Mas eu não aguento mais, eu quero me sentir feliz, quero dormir bem e acordar bem, quero fazer algo por mim.

A vendedora abre um sorriso, lentamente; o que é estranho, porque ela estava sorrindo esse tempo todo, e é como se ela tivesse aberto um sorriso por cima do sorriso. Os olhos dela parecem que vão saltar das órbitas.

– Você veio ao lugar certo, princesa! – Ela ri e alcança um belo livro de capa azul: PELO AMOR DE DEUS, EU TENHO DEPRESSÃO E EJACULAÇÃO PRECOCE, VOU ME MATAR!

Ela te estende o livro, sorrindo intensamente, você percebe que mesmo com a boca fechada ela parece emitir um som agudo, como uma minúscula panela de pressão.

Vendo que você não pega o livro na mão ela o arremessa no seu peito.

– Então, é que a ejaculação precoce não é bem o problema.

– Ah não, hahaha, besta, isso aí é só nos dois últimos capítulos. É que na verdade esse livro é a continuação do “PELO AMOR DE DEUS, EU TENHO DEPRESSÃO, VOU ME MATAR!”, que foi best-seller no mundo todo. Como o original esgotou imediatamente, relançaram essa versão extendida e não fazem mais da outra, mas eu te GARANTO – e aí ela para e pisca um dos olhos repetidas vezes – que ele vai ser perfeito pra você.

– Poxa – você dá um riso constrangido – se você diz com tanta convicção. Ele parece falar do que eu quero mesmo… Você sabe com qual método que ele trabalha?

– É um processo de olhar para a situação de um ponto de vista emocionalmente amplo, entendendo que as pessoas da sua família são tão traumatizadas quanto você e mesmo se esforçando muito, erraram. Ele te convida a entender o que você viveu de forma humana, assumindo a responsabilidade pela sua própria mudança.

– Vou levar o da virilha, quanto é que tá mesmo?