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Este ser está comigo o tempo todo

Ele tem vida própria

Convivo com suas limitações

E ele com as minhas

Me expresso através dele

E ele de mim

Como é mais fácil que os outros o vejam, costumam me julgar pelo que ele é

Alguns dizem que existem muitos tipos desses seres por aí

Outros já berram que não existem mais do que um par

Eu não sei sobre os outros, mas esse aqui que está sempre comigo não cabe num par de definições

É uma jornada entendê-lo, mas é o por ele que sinto o mundo

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O deserto dos sentimentos

Já era tarde da noite. Eu estava sozinho, dirigindo de volta para casa. Dessa vez não tinha ninguém me esperando. Isso era novo. Eu ainda não tinha pensado em como seria estar sozinho em casa. Se naquele momento eu decidisse não ir pra casa, nada mudaria para ninguém além de mim. Ao mesmo tempo que eu pensava que isso poderia ser liberdade, também sentia que isso poderia ser um vazio onde ninguém estaria se importando com minha existência naquele momento. Se eu sumisse, só no outro dia iriam perceber. Continuei dirigindo para casa.

Liguei o rádio e coloquei as músicas que eu queria, sempre me preocupar se alguém iria gostar daquilo ou não. De vez em quando algumas poucas pessoas que estavam na rua olhavam, outras nem percebiam (ou não se importavam) com minha passagem ali. Ainda não sabia se aquilo era liberdade.

Chegando em casa, coloquei as chaves no mesmo lugar de sempre e andei pela casa só para conferir que não tinha ninguém mesmo. Entrei em todos os cômodos e, depois de ver que estava realmente sozinho, sentei no sofá. Fiquei ali por um tempo parado, só sentindo aquela atmosfera diferente. Só as luzes que eu queria estavam ligadas, só tinha barulho se eu fizesse.

Quanto mais parado do lado de fora, mais meus pensamentos tinham espaço para navegar. Decidi ir deitar. Não estava com sono, mas queria ficar lá estirado vendo o reflexo das luzes da rua refletidas no teto. Enquanto eu andava em direção ao quarto, percebi que haviam tantos detalhes na casa que eu nunca havia notado.

Deitei e fechei os olhos. Depois de pensar sobre tudo aquilo que parecia ser urgente, minha mente começou a navegar no tempo. Vieram lembranças de quando eu era criança, depois outras mais recentes. Algumas me deixavam feliz, outras me faziam tremer de vergonha. Nossa! Como eu fiz aquilo?! Passei por tantas memórias que comecei a perceber relações entre elas. Memórias se ligaram. Comportamentos que eu não percebia se mostraram tão repetitivos. De vez em quando minha mente viajava para o futuro e eu começa a ver todas as possibilidades que pairavam lá. Planos, vontades, possibilidade de reconectar com o passado. Tudo parecia ser possível. Mas o que escolher?

Minha mente já tinha viajado bastante e provocado mais sentimentos do que um filme francês. Cansada de viajar, ela decidiu me mostrar o abismo. Comecei a pensar sobre minha identidade. O que eu deveria colocar no campo bio do Twitter? Será que eu sou o que eu faço ou o meu trabalho ou as bandeiras que carrego? Como fazer a vida ter sentido? Como eu não conseguia pensar na possibilidade de a vida não ter sentido, então qual seria o da minha? E aquilo tudo que eu gosto, por quê? Ah, quanto mais eu encarava esse abismo mais assustado eu ficava. As perguntas só eram respondidas com outras perguntas. Nenhuma resposta. Onde é que aperta o botão para descer na próxima parada? Já estava desconfortável isso.

Eu sabia que ia achar respostas se continuasse pensando, mas o quanto estou disposto a encarar esse abismo? Vi que nem tudo é respondido de uma vez. Acabei dormindo e meus sonhos se misturando com minhas ideias. Acordei no meio da noite com o quarto gelado porque a janela havia ficado aberta. Fui à cozinha, tomei um copo d’água, sentei na minha mesa de trabalho, escrevi cinco coisas que eu queria realizar, coloquei o despertador para 6h00, fechei a janela voltei a dormir.

O tempo é altamente agressivo. Eu preciso encarar o abismo, mas vou agir antes que o tempo acabe.

O que o incêndio levou a enchente trouxe de volta

Nesse carnaval eu me fantasiei de demônio, me pintei inteiro de vermelho com tinta de teatro e fui pra rua, com uma calça, muitos colares, e uma bolsa. Os colares, a calça e a bolsa voltaram completamente pintados de vermelho da tinta que escorreu do meu corpo, assim como as paredes do meu banheiro, o assento do vaso, o lençol e a fronha do travesseiro. Três dias depois eu ainda tô tirando tinta vermelha do meu cabelo e descobrindo manchas frescas espalhadas pelas minha coisas.

Nessa brincadeira mais umas tantas roupas mancharam de tinta, por que aparentemente, mesmo três dias e um banho de mar depois, eu ainda estou suando vermelho. Uma camisa, que eu comprei da minha amiga há uns cinco ou seis anos atrás e que por sinal é uma das minhas peças de roupa favorita, ficou rosa; e uma cueca, que eu comprei há pouco tempo mas que também me é muito querida, ficou laranja. A camisa rosa eu não curti, mas a cueca eu botei fé.

Eu não sei se minhas roupas vão voltar a ser o que elas eram antes, nem as que foram pintadas diretamente, nem as que só foram lavadas juntas, mas que pegaram a cor das outras mesmo assim. Pode ser que algumas voltem ao normal aos poucos, outras me parecem que ficaram manchadas pra valer; e honestamente, acho que só me resta aceitar. Eu tô firme e forte, deixando de molho, esfregando com a mão.. mas eu prefiro ter a roupa manchada do que rasgar ela na agonia de tirar as manchas. É o melhor que eu posso fazer no momento.

Às vezes, o melhor que eu posso fazer não parece ser o suficiente, especialmente no fim do dia quando eu tenho que voltar pra casa pra dormir sozinho nos meus lençóis manchados, ou quando eu tenho que acordar cedo pra compensar as horas do carnaval em um emprego que tantas vezes me traz muito mais estresse do que alegria; é como se fazer a coisa certa não recompensasse.

Mas a vida já me ensinou mais de uma vez que as respostas que a gente busca raramente aparecem quando a gente quer, mas que elas sempre aparecem quando a gente precisa. No fim tudo segue um fluxo, tudo se endireita de um jeito torto e as coisas não são tão complicadas quanto parecem. Eu me pintei inteiro de vermelho, e me senti incrível; tô triste pela camisa, mas gostei da cueca.

Meu chefe acha que eu não sou um adulto de verdade, por que eu só queria me sujar e não pensei em como me limpar. Eu acho que ele tinha que cuidar da própria vida, mas como é ele quem paga meu salário, dei uma risadinha.


O nome desse texto veio dessa música

Que nunca acabe

Minha vida é cheia de pessoas que me influenciaram. Tem aquelas que eu não conheço e só li um texto em blog perdido. Também tem aquelas que eu convivi. As primeiras eu sempre agradeço nos meus pensamentos ou em e-mails que geralmente nunca são respondidos – não tem problema, já basta eu ter encontrado aquelas palavras e elas terem me encontrado. As outras pessoas, ah, essas a gente consegue abraçar, sentar e conversar mais.

Uma dessas pessoas participou da minha vida durante minha adolescência. Ela era mais velha, já estava terminando a faculdade, enquanto isso eu estava entrando no ensino médio. Ela não era da minha cidade, estava aqui para estudar e tentar algum emprego. Nos víamos quase todos os dias. Pra mim foi como uma luz na escuridão. “Você poderia fazer um curso de inglês, tem esse lugar que eu fiz e foi muito bom”. Lá nesse curso eu conheci um dos professores que mais me inspiraram na vida. “O que você acha de ir pro CEFET? O ensino de lá é diferente. Foi bom pra mim, e talvez seja pra você”. E lá eu fiz meu ensino médio e toda minha vida mudou para sempre. “Você já escutou essas bandas?”. Assim eu descobri músicas que eu amo até hoje. Apesar da diferença de idade, eu sentia que eu era tratado com respeito, sabe? Minhas ideias mais malucas eram escutadas e, ao invés de serem ignoradas ou tidas como bobagem, lá estava ela junto comigo na cauda do asteroide que eu estava navegando.

Um dia ela adoeceu e teve que voltar a para sua cidade natal. Era grave e ela decidiu que queria ser tratada perto da família. Quando eu soube da notícia, eu senti algo que não consegui explicar porque nunca havia acontecido aquilo antes. Dentro de mim estava gelado, doía, tinha uma angústia. Passamos um tempo sem nos comunicarmos e sem nos vermos. O dia em que nos encontramos novamente pela primeira vez, era em uma confraternização e eu não conseguia me manter perto dela por muito tempo. Não conseguia por que ela precisava de força e eu não sabia se eu ia conseguir me controlar ao me aproximar. Fiquei o mais próximo que consegui naquele dia.

Passado mais algum tempo distante resolvi que tinha que ir visitá-la. Peguei o ônibus e fui. Uma viagem e tanto até chegar lá. No fim de semana que passei lá nós conversamos, escutamos música, passeamos, tudo como se nada de ruim tivesse acontecido. Cada instante foi maravilhoso. Estar com alguém que é importante pra gente faz cada momento ser bom.

Minha passagem de volta estava marcada para domingo a noite e ela disse que me levaria à rodoviária. “Você vai dirigindo pra eu poupar energia para dirigir na volta pra casa”. “Tudo bem”. Quando entramos no carro, ela ligou o som e colocou uma playlist para tocar. Eu já estava emotivo por aquilo ser a despedida daquele fim de semana, e ela ainda preparou uma playlist! Enquanto eu dirigia, íamos conversando. Eu dirigia o mais devagar que conseguia. Queria que aquele momento fosse infinito, que nunca acabasse. O amor e a felicidade preenchiam todo aquele carro. Chegamos na rodoviária, estacionei o carro e desci chorando. Não aguentei. Abracei ela e agradeci com um obrigado, não precisava dizer pelo que era, porque era por tudo.

Todos os meus sonhos são feitos de pedra. (Parte 2)

Você não vê?

As flores são fracas, mas as raízes são fortes
E se estendem terra adentro como se quisessem tocar o abismo

Você não vê?

Não há mais nada aqui, e não há mais ninguém
Tudo que restou são blocos de concreto e vidro partido, lotes abandonados, rejeito industrial.
Em meio aos restos ficou a estrada.
Todos os lugares estão vazios, mas se você estiver com pressa ainda pode chegar lá, basta pegar a expressa.
Monóxido de carbono, gasolina, ácido de bateria.
Tudo que você tocou virou pedra e tudo que eu toquei virou pó.

Você não vê?

A carne é fraca, mas os dentes são fortes
E mordem através dos anos, quebram os ossos e perfuram a memória.
Não há mais vida aqui, mas você não vai embora, e continua caminhando por paisagens desoladas, muros de cimento, lâmpadas de tungstênio.
E todo dia você diz que vai ser diferente
Mas toda noite termina igual
E você evita olhar para o lado, para o abismo que te acompanha
Como um alcoólatra que evita o primeiro gole
Ou como uma criança que dorme com as luzes ligadas

Você não vê?

Por baixo de toda essa mentira ainda existe algo vivo
Algo que pulsa e ferve e chama seu nome.
Você se esqueceu quem você é?
Você se esqueceu por que está aqui?
Essas paisagens desoladas nos confundem e nos enganam, como se não houvesse nada além disso
Mas esses prédios estão vazios não faz muito tempo
E você chegou aqui não faz muito tempo.
E eu venho ateando fogo nas casas para lhe mostrar que ainda estou vivo.

Você não vê?

Ainda tem um pouco de gasolina no seu carro.
Venha me encontrar.
Eu estou esperando por você.


Sigo com meus experimentos em narrativa, e tô achando mais abstrato do que eu esperava; mas tô tentando não pensar muito e me deixar sentir, sem ter que me ater a trama, cronologia e só escrever esses capítulos que me vêm à mente, à medida que eles vêm..

Fui inspirado pela letra da música Slow Hands do Interpol, e pela estrutura desses poemas em prosa intermináveis, como o I Have a Very Special Plan for This World, do Thomas Ligotti ou o Howl, do Allen Ginsberg. Se alguém souber de alguma coisa assim de um artista brasileiro me manda por favor!!!! Até a próxima.

Se não nós, então quem?

Acabei de assistir “Infiltrados na Kla*”. Meu coração bate forte, minhas mãos tremem e eu não sei ao certo se o que sinto é raiva ou medo. As vezes penso que é raiva por ver que discursos de ódio ainda estão presentes, mas as vezes penso que é medo, medo disso estar acontecendo forte aqui.

O filme conta uma história que se passou há uns 30 anos atrás. É a cruzada de um policial negro tentando acabar com a KK* local da cidade dele. O filme encerra com cenas de marchas racistas no ano de 2017 e de ataques às marchas do movimento Black Lives Matter.

Na época em que o filme se passou (e pelos relatos do filme), o grão-master da K3* fazia questão de não vestir o capuz, queimar cruzes ou participar das passeatas. Ele também não falava diretamente sobre agressão nos discursos. Tudo era subentendido e propagado pelas seções locais de seus seguidores. O sangue não era derramado diretamente das mãos dele, era por aqueles que o escutavam. Ele precisava se manter “limpo” para cumprir seu objetivo maior, que era levar suas ideias e seus discursos para a política. Seus seguidores desacreditavam em histórias como a do Holocausto. Judeus eram uma ameaça por roubarem trabalho e por terem matado Jesus. Tudo era motivado em nome de um ideal religioso e purista.

O discurso é um campo de batalha e todo discurso é impregnado de relações de poder. O ano é 2019, um político que carrega um discurso de ódio por anos sobe ao poder político máximo do país. Pessoas negam eventos de atrocidades que aconteceram no passado. Um culto ultra-nacionalista e conservador, em nome da igreja, se fortalece. Há uma exaltação a dita família tradicional (pura). As diferenças são tratadas como pontos a serem passados por cima. Tudo em nome de crescer a economia, abrir mais postos de trabalho, e fazer o país prosperar. As pessoas escutam esse discurso de ódio e levam tão a sério que se tornam um perigo maior do que o político, que está lá, protegido, deliberando e postando mensagens “inofensivas”, que a qualquer mal-entendido, ele volta e edita o Tweet.

Esses dias me perguntaram se minha loucura de acreditar que essa suposta violência que aconteceria após as eleições tinha se tornado verdade. Pelo que eu vejo nos comentários e perfis das redes sociais, eu tenho receio até da roupa que vou vestir na rua.

Eu não quero que essa história triste venha se repetir aqui. Que todo esse ódio e intolerância cresça. Não quero que o país se desenvolva às custas de pessoas morrendo, jovens se suicidando por não se encaixarem ou políticas públicas que tiram direitos de quem precisa.

Eu quero lutar nesse campo de batalha do discurso com palavras de amor, de tolerância e de compreensão. Eu quero contar que essas minorias não devem se curvar à maioria, pois a minoria é formada por pessoas. Cada uma dessas pessoas tem sua história e se conhecermos essas histórias elas vão deixar de ser “aquela minoria” para ser a Maria que levanta cedo, pega três ônibus para o trabalho, recebe um salário mínimo, mas mesmo cansada ela toda noite lê para suas filhas; ou então o Roberto, que, apesar de trabalhar na construção civil, não tem uma casa própria.

Nós não queremos mais direitos do que os outros, apenas queremos ser incluídos de verdade para que possamos aproveitar dos mesmos direitos, mesmo que isso signifique colocar cláusulas específicas na lei para garantir isso.

Quem sou eu pra falar estar aqui falando sobre isso tudo? Provavelmente ninguém. Mas se não eu, se não você, se não nós, então quem?

*Não vou escrever o nome aqui porque não quero que esse texto seja achado por isso.

A amizade moderna é constituída por duas pessoas que ficam encorajando uma a outra a fazer terapia.

Bom dia seus freudianos! Hoje eu quero falar sobre terapia. Mas de novo? Sim. Mas o último post já não foi sobre terapia? Sim. Você é obcecado por terapia por acaso? SIM! Completamente! Eu acho tudo, acho incrível, recomendo pra todo mundo. Atualmente eu faço uma vez a cada duas semanas mas se eu pudesse faria com mais frequência; tipo três vezes por semana, TIPO TRÊS HORAS POR SESSÃO.

cuidado com a bicha doida

Talvez eu tenha um vício. Talvez eu precise de ajuda. TALVEZ…. eu deva levar meu vício em terapia pra terapia. É isso que eu vou fazer. Vou sentar na cadeira, bem sério e dizer “Tânia,” olhando nos olhos dela, “acho que você é um relacionamento tóxico para mim.” Daí eu chamo ela de codependente e mando ela ir procurar ajuda.

Tá, eu exagero, mas uma coisa é verdade; só não faço toda semana por não querer gastar o dinheiro. E é por isso que eu não entendo sessões de terapia de meia hora. Em meia hora eu nem me achei no sofá. Também não entendo a instrutora da academia que eu frequento me dizendo que fez um mês de terapia quando tava se sentindo mal. MANA, UM MÊS? Se eu tivesse feito um mês de terapia quando eu tava mal eu acho que teria saído pior do que eu entrei! Em um mês eu mal tirei aquela primeira camada podre de pensamentos ruins que tava por cima; e só pra descobrir que tava mais podre ainda por baixo!

cuidado com a bicha satânica

Não entendo, mas se funciona pra você, se joga mana! No fim das contas eu sei que cada processo é um processo e cada pessoa é uma pessoa, e que o bom mesmo da vida é descobrir o seu caminho. Às vezes o que funciona pra mim não funcione pros outros. Chocante, eu sei, especialmente por que eu sempre tô certo em tudo; mas a vida tem essa mania de não concordar comigo em absolutamente tudo que eu acredito e penso; e a mim só cabe aceitar. E essa é a coisa que o acompanhamento psicológico mais me ajuda a fazer; primeiro olhar para aquilo que estou pensando e sentindo e depois aceitar as coisas como são.

A terapia te ajuda a parar de se enrolar nos fios soltos da vida e te convida a parar, pegar um único fio, e ir desenrolando ele. Aonde será que esse fio vai dar?
Fazer isso traz uma sensação incrível de leveza e prazer que é tipo um orgasmo simultâneo de todos os seus chakras. Raiva, tristeza, alegria, surpresa, desejo, nojo, resistência, nobreza, ego. Tudo isso vem junto no pacote de ser humano, e com uma frequência absurda a gente se esquece disso.

É fácil falar sobre aceitação, amor próprio, desapego, auto-conhecimento e como todas essas coisas nos fazem bem, mas falar sobre isso tudo é discutir conceitos; por que a ideia de plenitude não tem nada a ver com a experiência de plenitude. Não é sobre abrir os braços na frente do sol e sorrir e anunciar gratidão e fazer aquela pose de yoga que as perna fica pra cima. É sobre ir dormir CHEIO DE PROBLEMA, mas achar até gostoso por que no fim das contas… é tão bom ser humano!

Até a próxima amigos. Tenham um bom fim de semana e, VÃO SE TRATAR!


O título desse post veio desse tweet.

Dia de terapia

Então, como estás?

“Essa semana foi impossível, já faz uns quatro dias que eu fico acordada até não aguentar mais e só vou deitar quando eu tô caindo de sono. Se eu tento dormir antes eu não consigo e fico rolando na cama e minha cabeça não me deixa em paz! Pelo menos acordada eu faço alguma coisa e não me sinto tão inútil. Mas o dia seguinte é pior ainda, porque eu não consigo ficar de pé de cansaço e me sinto uma fracassada, que não consegue nem dormir na hora certa.” Rebeca para de falar, mas morde os lábios como quem tem mais a dizer, e olha para a terapeuta com desconforto.

Terapeuta julgando Rebeca

A terapeuta respira fundo e mantém o silêncio por um breve momento. Depois, se levanta, vai até uma estante e alcança um livro grosso, de capa dura e lombada decorada. Ela apoia o livro no colo e abre nas primeiras páginas, para consultar o sumário.

O livro vermelho de jung

Rebeca espera, tentando conter a ansiedade e manter a compostura ao mesmo tempo, e nitidamente não sendo capaz de fazer nenhum. “É como eu imaginava, Rebeca.” Mais uma pausa dramática. “Você quer transar com o seu pai.” O ar da sala fica azedo. “Quê?” “Sim, está escrito aqui.” A terapeuta vira o livro em sua direção. Nas páginas há uma grande tabela de correlações; em uma das células está escrito Fica acordada pra não se sentir fracassada e a célula ao lado diz Quer transar com o próprio pai.  Rebeca permanece atônita. Ela olha para o livro, depois para a terapeuta, depois para o livro de novo.

CONTROLE-SE REBECA!

“Vamos ser honestas, Rebeca; você é bem sequelada.” A terapeuta faz um gesto vago com a mão, de que disse algo óbvio. “E é importante que você entenda; ter problemas é algo completamente normal! Eu por exemplo tenho inveja do pênis da minha mãe.” Ela vira o livro em outra página da tabela e aponta para uma linha; Investe todo o seu tempo no trabalho pra não lidar com os próprios problemas, e na célula ao lado, Tem inveja do pênis da própria mãe. “Eu também não entendi muito bem, mas a psicologia é uma coisa complicada.” Rebeca concorda, agora um pouco mais calma. Ela toma um gole d’água. “É.. eu acho que sim. É difícil passar por isso por me sentir tão exposta mas… eu quero enfrentar isso!” A terapeuta sorri levemente. “Sim, sim, que bom.. vou ser sincera com você Rebeca, seu caso é beeem complicado, mesmo, mas nós vamos lidar juntas. Aceitar a própria situação é o primeiro passo para mudar.” Rebeca sorri.

o autoconhecimento muda vidas!

“Agora, nosso tempo já acabou, e minha próxima cliente já está esperando.” A terapeuta se levanta, se aproxima de Rebeca e sussurra. “Ela é uma mulher adulta que ainda não superou a fase anal da irmã mais velha” Rebeca abafa uma risada com as mãos. “Sim, completamente traumatizada.” Elas se despedem e Rebeca sai, se sentindo aliviada e confiante. Naquela noite, dormiu como nunca antes.

bons sonhos, Rebeca!

Sim

Era sexta e eu tinha acabado de chegar na casa de um amigo para uma comemoração. De comemoração não tinha nada, era tudo só uma desculpa para se juntar e jogar conversa fora. Tinha mais gente do que outras vezes. Algumas eu conhecia, outras não. Tinha um garoto que eu não conhecia e estava sentado na ponta do sofá da sala. Ele era diferente das pessoas que vejo todos os dias, falava e se movia com confiança, brincava com olhares, risos e expressões, conversava sobre assuntos que iam além do trivial. Quando percebi, meu coração estava acelerado, tinha ficado caído por ele.

Enquanto eu estava na sala, eu não conseguia parar de olhar para ele e observar como ele falava e se movia. Aquilo era incrível. As vezes eu até tentava disfarçar, mas logo meu olhar era atraído novamente. Tentei distrair conversando com outras pessoas, mas não adiantou. Decidi ir à cozinha. Lá não ia ter essa distração (tentação). Abri a geladeira, peguei uma bebida, quando virei o garoto estava entrando na cozinha. Aproveitei que já estava na frente da geladeira, “Você quer?”. “Claro”. Entreguei para ele a bebida e depois ficou um silêncio constrangedor por alguns instantes. Ele puxou assunto, ainda bem. Encostei na pia e ele se sentou na cadeira e assim continuamos conversando por um bom tempo. A conversa foi ficando cada vez mais interessante e eu cada vez mais na dele. Estávamos nos aproximando, mas eu estava receoso. Não estava afim de apenas ficar com alguém, mas ele parecia estar. Por quê de todo mundo que estava ali, ele iria se interessar por mim mim? Tinham outras pessoas mais interessantes ali, ou em outro lugar. Minha falta de confiança me fez não querer ir mais pra frente naquela conversa. Eu decidi acabar por ali enquanto estava tudo bem, senão minha ilusão só ia aumentar. “Vou pra casa, já está tarde”, eu disse. “Está cedo, fica mais.”. “Acho que não, até mais”. E fui saindo antes que ele insistisse mais.

Em casa eu não consegui dormir tão cedo. Fiquei revirando na cama pensando nele. Meus pensamentos pulavam entre ter me arrependido de ter ido pra casa e achar melhor assim pra não machucar com aquilo. Enfim eu dormi.

Acordei de manhã e tinha uma notificação no celular, “Tem algo em você que mexeu comigo. Nunca senti isso antes. Quer sair hoje?”.

Por quê contar outras histórias?

Em dezembro do ano passado, a Netflix apresentou o trailer da série dos Cavaleiros do Zodíaco que vai ser exibida nesse ano. A personagem Shun de Andrômeda agora vai ser representada por uma mulher, se tornando Shaun de Andrômeda. Muitos se sentiram atacados por essa mudança e despejaram seus comentários no Twitter. O roteirista se pronunciou dizendo que é uma questão de representatividade e que 30 anos atrás, quando o anime foi lançado pela primeira vez, era aceitável ver um grupo só de homens juntos para salvar o mundo, só que hoje não é mais assim. Quem sempre foi representado nas histórias vai dizer que é exagero. “Estão forçando a barra”. “Apelaram!”. Mas não, definitivamente não. Temos muito mais do que só uma história para contar.

A forma de como uma história é contada traz o poder de transformar como eu me vejo e como vejo o mundo a minha volta. Através de uma história eu posso me sentir representado ou sentir empatia por outra pessoa.

Eu cresci assistindo filmes que tinham neve no inverno. Não tem nenhum problema fazerem filmes cheios de neve no inverno. O problema é quando tudo que chega pra mim são filmes que só mostram esse tipo de inverno. Por quê? Eu passo a questionar por que não neva onde eu moro. Passo a ficar chateado com esse fato e querer aquilo que eu vejo no filme. E a minha história, ou a minha cultura? Elas não existem por que não são contadas.

Quando eu vejo uma história que me representa, sinto que não estou sozinho, sinto que existo e que existe vida além daquilo que vejo todo dia. Precisamos nos ver nas histórias superando desafios, realizando feitos incríveis, com poderes incríveis, viajando, vivendo e descobrindo, ou então, sendo apenas humanos, tendo nossas realidades apresentadas, com aquilo que é trivial, rotineiro, feliz ou doloroso.

Quando o outro vê uma história que me representa, ele vê que existem outras histórias. Ele pode se colocar naquele lugar e ter uma breve noção de como eu me sinto, de como eu sou, ou como eu realmente vivo. Isso é empatia.

Jesus, Viva (2015)

Em Viva (2015), vejo na protagonista todas as dificuldades que ela também enfrenta para se entender, se aceitar, se posicionar no mundo a sua volta, e além de tudo comunicar isso para as pessoas. Quando o outro vê esse mesmo filme, ele tem a oportunidade de ver pelos olhares de Jesus, a protagonista, como é difícil passar por aquilo tudo e que ela não é pior por ser assim, é apenas outro ser-humano aprendendo a se conhecer e lidar com sua vida. Eu vejo que no fim do filme o relacionamento da protagonista e de seu pai deu certo, isso me conforta. O outro pode ver que é possível conviver e continuar amando seu filho que não é como os outros.

As histórias capturam a essência das interações sociais, a estrutura da ação humana, e por isso podem nos ensinar sobre a nossa cultura e a de outras pessoas. Elas permitem simular o mundo a nossa volta, nos ajudar a lidar com o presente, imaginar o passado e o futuro. Ativam partes do nosso cérebro envolvidas em processamento social e emocional, facilitando nosso sentimento de empatia por outros.

Viva (2015) https://www.imdb.com/title/tt4334482/

Referências