Sol em Gêmeos 2019 – 21 de Maio a 20 de Junho

Se Touro me arrastou pela lama, Gêmeos me tirou pra dançar e me rodopiou direto no meio do holofote. Em alguns dias me senti a bicha mais poderosa do mundo, que eu conseguiria conquistar a babilônia na base da conversa e do sorriso. Conversar é geminiano; mas conversar não é só sobre falar, é principalmente sobre ouvir. Ouvir o que está sendo dito, ouvir como está sendo dito, ouvir aonde a língua se segura pra não dedurar o que a mente tá cozinhando; isso sim é SUPER geminiano.

Existem pessoas que são melhores em ouvir do que outras, e existem aquelas que até poderiam ouvir, mas que simplesmente não querem. Lembre-se que não adianta conversar com essa pessoa, por que pra ela você é só eco; e tudo que você falar só vai refletir aquilo que ela quer ouvir. Lembre-se também que todas as pessoas podem ser essa pessoa em determinado momento. Aprenda a identificá-la, aprenda a identificar-se.

Aprenda a ouvir. Aprenda a falar. Aprenda a falar em outra língua. Aprenda a falar sem usar a língua. Aprenda a piscar. Aprenda a aprender, e a guardar as coisas que se aprende em uma gaveta nos corredores do seu cérebro pra poder buscar quando precisar. Um aprendizado fantástico dessa temporada geminiana foi a geolocalização. Sem mapas, sem maps, sem “segue reto e vira a próxima à direita”. Só eu, minha memória e minha intuição. Localização é um talento que nunca tive e que achava que nunca teria, mas voilá, na hora do aperto as cartas caem da manga.

Essa capacidade camaleônica de ler o ambiente e se adaptar responsivamente é incrível e muito útil, mas também acaba sendo muito inebriante, por que você sente que tá surfando no topo da maior onda, tirando o melhor de cada situação e saindo como charmoso sempre. E não dá pra você estar sempre nessa, garota. Às vezes você precisa estar por baixo pra aprender, às vezes você precisa não saber o que falar pra poder pensar de novo e falar melhor, às vezes simplesmente não é sobre você. O processo de se adaptar também acaba te desconectando da estabilidade de ser. De tanto ir e voltar, seu centro acaba ficando fraco, moldável. Reconsiderar é necessário, mas ter um norte imutável é tão necessário quanto. É isso que te tira do fluxo de pensamentos cíclicos e repetitivos. Como um remédio que precisa de uma dose exata para te fazer bem, o reconsiderar pode se tornar um veneno quando não sabemos o limite.

Quem sou? Por que sou? Sou por que posso ou por que quero? Quero mesmo ou só preciso disso agora? Tome cuidado pra não se perder nas perguntas; você não é elas. Tome cuidado pra não ter certeza das respostas. De modo geral tente manter a leveza, e saiba se perdoar. Você é humano e com certeza absoluta uma hora vai agir igual um idiota.

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Sol em Touro 2019 – 20 de Abril a 20 de Maio

Levantar da cama nem sempre é uma tarefa possível, e é por isso que eu coloco pequenas cenouras na minha frente pra quebrar a inércia do motor. Ir na academia pra ficar malhado, trabalhar pra ganhar dinheiro, economizar pra comprar uma coisa melhor… eu confio que um dia eu vou chegar na cenoura; mas eu sei que ela tá sempre longe e que minha força de vontade não é eterna, então eu ponho pequenos pit-stops no caminho; um almoço com os amigos, um café, dois shots de tequila..

A temporada de Touro é engraçada por que no começo parece que vai ser eterna, mas de repente já passou e ninguém nem percebeu. Ou pelo menos foi assim pra mim. Eu tive que me esforçar mais, dormir menos, dar tapas na minha própria cara pra eu não desistir ainda, por que muitos dos meus dilemas pareciam que não iriam acabar. Ao mesmo tempo, quando eu assumia as situações e dava cabo delas, uma por vez, eu resolvia muita coisa com pequenos atos.

Quem é o dono do tempo das coisas? Quem decide a hora do fruto amadurecer? Quem nos diz que ainda é cedo e quem nos diz que já é tarde demais?

Eu gostei de viver minhas certezas de forma mais cadenciada, vagarosa.. pra alguém que tá acostumado a viver a vida no alto-falante e no estandarte, é um grande avanço. Eu ainda passaria dez horas num palanque falando sobre mim mesmo mas, enquanto a oportunidade não chega, eu posso falar um minuto por dia.

Sintonia, melodia, harmonia. Hoje eu sei que a sensualidade que eu busco existe em um estado latente, em alguma camada da consciência que flue e brota como nascente em pontos soltos da paisagem. Mas também sei que posso cuidar do solo para que nasçam as flores, e nutrir minha alma para que eu me permita mais, me arrisque mais e me deseje mais. Sou um lindo Jardim.

Borboletas, fiquem à vontade, tá?

Sol em Áries 2019 – 20 de Março a 20 de Abril

O primeiro terço do Outono. A despedida do Verão. É a temporada de Áries; e eu cheguei a pensar em não falar do signo, pra apelar também para um público mais cético,mas veja bem, agora é tarde demais. Pois sim. A vida é feita de escolhas; e na maior parte delas você não vai poder voltar atrás. Quer coisa mais ariana que isso?

Esse foi um tempo em que eu quis desistir de tudo inúmeras vezes, o que é curioso para um signo conhecido pela ferocidade e garra. Foi um tempo de me domar, e ser mais forte que meus impulsos, mas não foram impulsos de dominar ou destruiu, e sim de parar e me afastar silenciosamente.

Eu senti o coração na superfície da minha pele, emoções que vinham até a epiderme e coçavam pra sair. Acho que a superfície precisava ser sentida. Acho que a minha pele precisava de sangue, fogo e desejo. Construí expectativas só pra vê-las sendo arregaçadas. Senti raiva. Não foi bonito ou prazeroso, mas foi honesto e resolutivo. Entre uma mentira frágil e uma verdade bruta, qual você escolheria?

Houve ainda uma sensação de cansaço, mormaço, trabalho inútil. Uma repetição que não constrói nem destrói, só repete. Tédio. Rádio. Central telefônica. Não desligue, sua ligação é muito importante para nós. Me sinto cansado de manter um sistema falido funcionando. As montanhas de pedra, a que servem? Quem desenhou os arcos e desvios dessas estruturas que nos cercam? Quem construiu os muros que nos prendem? Quem misturou o cimento? Quem fundiu o aço, e com que fogo?

No meio disso tudo vem correndo por mim um desejo incontrolável de mudança. Sinto vontade de me recriar, de me tornar tão forte e intenso que nada disso seja capaz de me parar. Quero prazer e alegria, e quero que venha de dentro. Quero me sentir uma pessoa fresca e leve, sensual e deliciosa. Quero escorrer da minha própria boca, quero costas grudadas na parede e cabelo grudado na cara. Quero me sentir à vontade para me sentir.

Enquanto escrevo e penso nisso, sinto vontade de me esfolar, me ferir e sangrar. Não sei como lidar com esse desejo tão auto destrutivo, mas achei interessante. Me cortar ou perfurar não me atraem, tão pouco me queimar. Não quero machucar a mim mesmo e nem corro esse risco, mas ao fim da temporada de Áries, eu sinto como se devesse ter ralado o joelho ou o cotovelo em algum lugar. Acho que o que eu quero mesmo é fuder.

Houston, eu tenho tantos problemas…

Alô, alô.. Aqui sou eu, João Gabriel, transmitindo do espaço.

Esses dias eu tenho ficado muito cansado da vida na terra, então eu improvisei uma cápsula espacial com o motor da Air Fryer e me catapultei pra fora da atmosfera; mas eu ainda estou em órbita, por que eu achei que vagar pelo espaço sideral ia me gastar muito tempo pra fazer um monte de marmitas e eu ando com bastante preguiça de cozinhar. E eu também não tô tãaao cansado assim da experiência humana a ponto de sair de órbita, só um pouco de saco cheio.

É muito todo dia a mesma coisa, sabe? Trabalhar de segunda a sexta, o fone de ouvido o tempo todo pra não pirar de vez de ficar respirando aquele ar condicionado e aquela luz artificial, voltar pra casa, consumir alguma coisa no tempo livre, fazer alguma coisa no tempo livre, correr atrás dos seus sonhos no tempo livre. Aqui em cima as coisas são bem mais tranquilas, não tenho que trabalhar nem pagar aluguel, e de vez em quando passo por um satélite e eu aproveito pra escutar uma música.

Quando eu fui pra Terra eu achei que as coisas funcionavam de uma maneira muito simples. Eu me lembro de um dia em que eu corri em direção a um monte de pombas e elas saíram voando, e eu achei aquilo lindo!, então eu corri em direção a um monte de cachorros de rua e eles me atacaram. As coisas na Terra são muito complexas, têm muitas variáveis e não é por ter dado certo uma vez que vai dar duas. É como se a verdade estivesse o tempo todo se esquivando. Às vezes desaparece sem dar um sinal, às vezes tá bem na nossa frente, mas sempre tá fora do nosso alcance. Flutuando no espaço eu não tô mais preocupado em alcançar a verdade. Não sei, a falta de oxigênio torna as coisas muito mais simples.

Tem uma galera que diz que encontrar a verdade suprema é o propósito da vida; ao mesmo tempo tem uma galera que diz que o propósito da vida é negar os desejos e impulsos, e tem uma galera que diz que é honrar as leis divinas. Eu costumava me identificar com a galera mística que diz que o propósito da vida é elevar a alma através do autoconhecimento, mas ultimamente tô achando que esse assunto anda muito concorrido e decidi deixar a discussão pros outros.

Lá na Terra o combustível mais potente da minha vida nesses dias tem sido o sexo. Eu tô tentando parar de fumar, tô tentando diminuir na bebida, dormir melhor, fazer mais exercícios, meditar.. tô fazendo isso por que tô preocupado com a saúde do meu corpo e mente e todo o resto, claro, mas o que mais me motiva é pensar que quanto mais saudável meu corpo e mente estiverem mais energia eu vou ter pra transar. Eu poderia dizer que é minha natureza primitiva e animal buscando a reprodução, mas já me deixaram claro que sexo entre dois homens não gera filhos, então acho que é só tesão mesmo.

Não me levem a mal, tem muitas outras coisas que me alegram na vida, eu sei apreciar uma boa comida, um encontro com os amigos, pegar um sol na cara, cuidar das plantas.. o que eu não tô sendo capaz de suportar é o fato de que todo dia essas coisas são empurradas pro segundo plano da existência, e todo dia eu acordo cedo pra criar banners pra um site e fazer uma galera rica ficar mais rica ainda e comprar, sei lá, um frigobar novo pro jatinho. Enquanto isso eu tenho amigos desempregados, e enquanto isso tem gente que tá trabalhando em cativeiro.

Já faz uns anos que eu tô tendo que escolher entre ler ou ver um filme ou ver os amigos ou dar um tempo pra minha cabeça e sentar na varanda pra ver a lua; e eu tava com saudade de ver a lua. Aqui no espaço sideral eu não tenho mais que escolher, mas eu também não tenho o que escolher. Eu também não tenho que me incomodar mais com essas coisas de ser humano e a frustração de ver tudo em um estado tão fudido. Por outro lado eu também não tenho como fazer nada pra mudar isso. Felizmente, a lua daqui de cima tá linda.

Enfim, tô falando isso tudo pra dizer que: eu trouxe uma garrafa de vinho, eu já bebi ela inteira, agora eu tô bêbado e eu não sei mais como faz pra operar esse painel.

Tem como alguém vir me buscar? Queria muito tomar um banho.

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Este ser está comigo o tempo todo

Ele tem vida própria

Convivo com suas limitações

E ele com as minhas

Me expresso através dele

E ele de mim

Como é mais fácil que os outros o vejam, costumam me julgar pelo que ele é

Alguns dizem que existem muitos tipos desses seres por aí

Outros já berram que não existem mais do que um par

Eu não sei sobre os outros, mas esse aqui que está sempre comigo não cabe num par de definições

É uma jornada entendê-lo, mas é o por ele que sinto o mundo

O deserto dos sentimentos

Já era tarde da noite. Eu estava sozinho, dirigindo de volta para casa. Dessa vez não tinha ninguém me esperando. Isso era novo. Eu ainda não tinha pensado em como seria estar sozinho em casa. Se naquele momento eu decidisse não ir pra casa, nada mudaria para ninguém além de mim. Ao mesmo tempo que eu pensava que isso poderia ser liberdade, também sentia que isso poderia ser um vazio onde ninguém estaria se importando com minha existência naquele momento. Se eu sumisse, só no outro dia iriam perceber. Continuei dirigindo para casa.

Liguei o rádio e coloquei as músicas que eu queria, sempre me preocupar se alguém iria gostar daquilo ou não. De vez em quando algumas poucas pessoas que estavam na rua olhavam, outras nem percebiam (ou não se importavam) com minha passagem ali. Ainda não sabia se aquilo era liberdade.

Chegando em casa, coloquei as chaves no mesmo lugar de sempre e andei pela casa só para conferir que não tinha ninguém mesmo. Entrei em todos os cômodos e, depois de ver que estava realmente sozinho, sentei no sofá. Fiquei ali por um tempo parado, só sentindo aquela atmosfera diferente. Só as luzes que eu queria estavam ligadas, só tinha barulho se eu fizesse.

Quanto mais parado do lado de fora, mais meus pensamentos tinham espaço para navegar. Decidi ir deitar. Não estava com sono, mas queria ficar lá estirado vendo o reflexo das luzes da rua refletidas no teto. Enquanto eu andava em direção ao quarto, percebi que haviam tantos detalhes na casa que eu nunca havia notado.

Deitei e fechei os olhos. Depois de pensar sobre tudo aquilo que parecia ser urgente, minha mente começou a navegar no tempo. Vieram lembranças de quando eu era criança, depois outras mais recentes. Algumas me deixavam feliz, outras me faziam tremer de vergonha. Nossa! Como eu fiz aquilo?! Passei por tantas memórias que comecei a perceber relações entre elas. Memórias se ligaram. Comportamentos que eu não percebia se mostraram tão repetitivos. De vez em quando minha mente viajava para o futuro e eu começa a ver todas as possibilidades que pairavam lá. Planos, vontades, possibilidade de reconectar com o passado. Tudo parecia ser possível. Mas o que escolher?

Minha mente já tinha viajado bastante e provocado mais sentimentos do que um filme francês. Cansada de viajar, ela decidiu me mostrar o abismo. Comecei a pensar sobre minha identidade. O que eu deveria colocar no campo bio do Twitter? Será que eu sou o que eu faço ou o meu trabalho ou as bandeiras que carrego? Como fazer a vida ter sentido? Como eu não conseguia pensar na possibilidade de a vida não ter sentido, então qual seria o da minha? E aquilo tudo que eu gosto, por quê? Ah, quanto mais eu encarava esse abismo mais assustado eu ficava. As perguntas só eram respondidas com outras perguntas. Nenhuma resposta. Onde é que aperta o botão para descer na próxima parada? Já estava desconfortável isso.

Eu sabia que ia achar respostas se continuasse pensando, mas o quanto estou disposto a encarar esse abismo? Vi que nem tudo é respondido de uma vez. Acabei dormindo e meus sonhos se misturando com minhas ideias. Acordei no meio da noite com o quarto gelado porque a janela havia ficado aberta. Fui à cozinha, tomei um copo d’água, sentei na minha mesa de trabalho, escrevi cinco coisas que eu queria realizar, coloquei o despertador para 6h00, fechei a janela voltei a dormir.

O tempo é altamente agressivo. Eu preciso encarar o abismo, mas vou agir antes que o tempo acabe.

O que o incêndio levou a enchente trouxe de volta

Nesse carnaval eu me fantasiei de demônio, me pintei inteiro de vermelho com tinta de teatro e fui pra rua, com uma calça, muitos colares, e uma bolsa. Os colares, a calça e a bolsa voltaram completamente pintados de vermelho da tinta que escorreu do meu corpo, assim como as paredes do meu banheiro, o assento do vaso, o lençol e a fronha do travesseiro. Três dias depois eu ainda tô tirando tinta vermelha do meu cabelo e descobrindo manchas frescas espalhadas pelas minha coisas.

Nessa brincadeira mais umas tantas roupas mancharam de tinta, por que aparentemente, mesmo três dias e um banho de mar depois, eu ainda estou suando vermelho. Uma camisa, que eu comprei da minha amiga há uns cinco ou seis anos atrás e que por sinal é uma das minhas peças de roupa favorita, ficou rosa; e uma cueca, que eu comprei há pouco tempo mas que também me é muito querida, ficou laranja. A camisa rosa eu não curti, mas a cueca eu botei fé.

Eu não sei se minhas roupas vão voltar a ser o que elas eram antes, nem as que foram pintadas diretamente, nem as que só foram lavadas juntas, mas que pegaram a cor das outras mesmo assim. Pode ser que algumas voltem ao normal aos poucos, outras me parecem que ficaram manchadas pra valer; e honestamente, acho que só me resta aceitar. Eu tô firme e forte, deixando de molho, esfregando com a mão.. mas eu prefiro ter a roupa manchada do que rasgar ela na agonia de tirar as manchas. É o melhor que eu posso fazer no momento.

Às vezes, o melhor que eu posso fazer não parece ser o suficiente, especialmente no fim do dia quando eu tenho que voltar pra casa pra dormir sozinho nos meus lençóis manchados, ou quando eu tenho que acordar cedo pra compensar as horas do carnaval em um emprego que tantas vezes me traz muito mais estresse do que alegria; é como se fazer a coisa certa não recompensasse.

Mas a vida já me ensinou mais de uma vez que as respostas que a gente busca raramente aparecem quando a gente quer, mas que elas sempre aparecem quando a gente precisa. No fim tudo segue um fluxo, tudo se endireita de um jeito torto e as coisas não são tão complicadas quanto parecem. Eu me pintei inteiro de vermelho, e me senti incrível; tô triste pela camisa, mas gostei da cueca.

Meu chefe acha que eu não sou um adulto de verdade, por que eu só queria me sujar e não pensei em como me limpar. Eu acho que ele tinha que cuidar da própria vida, mas como é ele quem paga meu salário, dei uma risadinha.


O nome desse texto veio dessa música

Que nunca acabe

Minha vida é cheia de pessoas que me influenciaram. Tem aquelas que eu não conheço e só li um texto em blog perdido. Também tem aquelas que eu convivi. As primeiras eu sempre agradeço nos meus pensamentos ou em e-mails que geralmente nunca são respondidos – não tem problema, já basta eu ter encontrado aquelas palavras e elas terem me encontrado. As outras pessoas, ah, essas a gente consegue abraçar, sentar e conversar mais.

Uma dessas pessoas participou da minha vida durante minha adolescência. Ela era mais velha, já estava terminando a faculdade, enquanto isso eu estava entrando no ensino médio. Ela não era da minha cidade, estava aqui para estudar e tentar algum emprego. Nos víamos quase todos os dias. Pra mim foi como uma luz na escuridão. “Você poderia fazer um curso de inglês, tem esse lugar que eu fiz e foi muito bom”. Lá nesse curso eu conheci um dos professores que mais me inspiraram na vida. “O que você acha de ir pro CEFET? O ensino de lá é diferente. Foi bom pra mim, e talvez seja pra você”. E lá eu fiz meu ensino médio e toda minha vida mudou para sempre. “Você já escutou essas bandas?”. Assim eu descobri músicas que eu amo até hoje. Apesar da diferença de idade, eu sentia que eu era tratado com respeito, sabe? Minhas ideias mais malucas eram escutadas e, ao invés de serem ignoradas ou tidas como bobagem, lá estava ela junto comigo na cauda do asteroide que eu estava navegando.

Um dia ela adoeceu e teve que voltar a para sua cidade natal. Era grave e ela decidiu que queria ser tratada perto da família. Quando eu soube da notícia, eu senti algo que não consegui explicar porque nunca havia acontecido aquilo antes. Dentro de mim estava gelado, doía, tinha uma angústia. Passamos um tempo sem nos comunicarmos e sem nos vermos. O dia em que nos encontramos novamente pela primeira vez, era em uma confraternização e eu não conseguia me manter perto dela por muito tempo. Não conseguia por que ela precisava de força e eu não sabia se eu ia conseguir me controlar ao me aproximar. Fiquei o mais próximo que consegui naquele dia.

Passado mais algum tempo distante resolvi que tinha que ir visitá-la. Peguei o ônibus e fui. Uma viagem e tanto até chegar lá. No fim de semana que passei lá nós conversamos, escutamos música, passeamos, tudo como se nada de ruim tivesse acontecido. Cada instante foi maravilhoso. Estar com alguém que é importante pra gente faz cada momento ser bom.

Minha passagem de volta estava marcada para domingo a noite e ela disse que me levaria à rodoviária. “Você vai dirigindo pra eu poupar energia para dirigir na volta pra casa”. “Tudo bem”. Quando entramos no carro, ela ligou o som e colocou uma playlist para tocar. Eu já estava emotivo por aquilo ser a despedida daquele fim de semana, e ela ainda preparou uma playlist! Enquanto eu dirigia, íamos conversando. Eu dirigia o mais devagar que conseguia. Queria que aquele momento fosse infinito, que nunca acabasse. O amor e a felicidade preenchiam todo aquele carro. Chegamos na rodoviária, estacionei o carro e desci chorando. Não aguentei. Abracei ela e agradeci com um obrigado, não precisava dizer pelo que era, porque era por tudo.

Todos os meus sonhos são feitos de pedra. (Parte 2)

Você não vê?

As flores são fracas, mas as raízes são fortes
E se estendem terra adentro como se quisessem tocar o abismo

Você não vê?

Não há mais nada aqui, e não há mais ninguém
Tudo que restou são blocos de concreto e vidro partido, lotes abandonados, rejeito industrial.
Em meio aos restos ficou a estrada.
Todos os lugares estão vazios, mas se você estiver com pressa ainda pode chegar lá, basta pegar a expressa.
Monóxido de carbono, gasolina, ácido de bateria.
Tudo que você tocou virou pedra e tudo que eu toquei virou pó.

Você não vê?

A carne é fraca, mas os dentes são fortes
E mordem através dos anos, quebram os ossos e perfuram a memória.
Não há mais vida aqui, mas você não vai embora, e continua caminhando por paisagens desoladas, muros de cimento, lâmpadas de tungstênio.
E todo dia você diz que vai ser diferente
Mas toda noite termina igual
E você evita olhar para o lado, para o abismo que te acompanha
Como um alcoólatra que evita o primeiro gole
Ou como uma criança que dorme com as luzes ligadas

Você não vê?

Por baixo de toda essa mentira ainda existe algo vivo
Algo que pulsa e ferve e chama seu nome.
Você se esqueceu quem você é?
Você se esqueceu por que está aqui?
Essas paisagens desoladas nos confundem e nos enganam, como se não houvesse nada além disso
Mas esses prédios estão vazios não faz muito tempo
E você chegou aqui não faz muito tempo.
E eu venho ateando fogo nas casas para lhe mostrar que ainda estou vivo.

Você não vê?

Ainda tem um pouco de gasolina no seu carro.
Venha me encontrar.
Eu estou esperando por você.


Sigo com meus experimentos em narrativa, e tô achando mais abstrato do que eu esperava; mas tô tentando não pensar muito e me deixar sentir, sem ter que me ater a trama, cronologia e só escrever esses capítulos que me vêm à mente, à medida que eles vêm..

Fui inspirado pela letra da música Slow Hands do Interpol, e pela estrutura desses poemas em prosa intermináveis, como o I Have a Very Special Plan for This World, do Thomas Ligotti ou o Howl, do Allen Ginsberg. Se alguém souber de alguma coisa assim de um artista brasileiro me manda por favor!!!! Até a próxima.

Se não nós, então quem?

Acabei de assistir “Infiltrados na Kla*”. Meu coração bate forte, minhas mãos tremem e eu não sei ao certo se o que sinto é raiva ou medo. As vezes penso que é raiva por ver que discursos de ódio ainda estão presentes, mas as vezes penso que é medo, medo disso estar acontecendo forte aqui.

O filme conta uma história que se passou há uns 30 anos atrás. É a cruzada de um policial negro tentando acabar com a KK* local da cidade dele. O filme encerra com cenas de marchas racistas no ano de 2017 e de ataques às marchas do movimento Black Lives Matter.

Na época em que o filme se passou (e pelos relatos do filme), o grão-master da K3* fazia questão de não vestir o capuz, queimar cruzes ou participar das passeatas. Ele também não falava diretamente sobre agressão nos discursos. Tudo era subentendido e propagado pelas seções locais de seus seguidores. O sangue não era derramado diretamente das mãos dele, era por aqueles que o escutavam. Ele precisava se manter “limpo” para cumprir seu objetivo maior, que era levar suas ideias e seus discursos para a política. Seus seguidores desacreditavam em histórias como a do Holocausto. Judeus eram uma ameaça por roubarem trabalho e por terem matado Jesus. Tudo era motivado em nome de um ideal religioso e purista.

O discurso é um campo de batalha e todo discurso é impregnado de relações de poder. O ano é 2019, um político que carrega um discurso de ódio por anos sobe ao poder político máximo do país. Pessoas negam eventos de atrocidades que aconteceram no passado. Um culto ultra-nacionalista e conservador, em nome da igreja, se fortalece. Há uma exaltação a dita família tradicional (pura). As diferenças são tratadas como pontos a serem passados por cima. Tudo em nome de crescer a economia, abrir mais postos de trabalho, e fazer o país prosperar. As pessoas escutam esse discurso de ódio e levam tão a sério que se tornam um perigo maior do que o político, que está lá, protegido, deliberando e postando mensagens “inofensivas”, que a qualquer mal-entendido, ele volta e edita o Tweet.

Esses dias me perguntaram se minha loucura de acreditar que essa suposta violência que aconteceria após as eleições tinha se tornado verdade. Pelo que eu vejo nos comentários e perfis das redes sociais, eu tenho receio até da roupa que vou vestir na rua.

Eu não quero que essa história triste venha se repetir aqui. Que todo esse ódio e intolerância cresça. Não quero que o país se desenvolva às custas de pessoas morrendo, jovens se suicidando por não se encaixarem ou políticas públicas que tiram direitos de quem precisa.

Eu quero lutar nesse campo de batalha do discurso com palavras de amor, de tolerância e de compreensão. Eu quero contar que essas minorias não devem se curvar à maioria, pois a minoria é formada por pessoas. Cada uma dessas pessoas tem sua história e se conhecermos essas histórias elas vão deixar de ser “aquela minoria” para ser a Maria que levanta cedo, pega três ônibus para o trabalho, recebe um salário mínimo, mas mesmo cansada ela toda noite lê para suas filhas; ou então o Roberto, que, apesar de trabalhar na construção civil, não tem uma casa própria.

Nós não queremos mais direitos do que os outros, apenas queremos ser incluídos de verdade para que possamos aproveitar dos mesmos direitos, mesmo que isso signifique colocar cláusulas específicas na lei para garantir isso.

Quem sou eu pra falar estar aqui falando sobre isso tudo? Provavelmente ninguém. Mas se não eu, se não você, se não nós, então quem?

*Não vou escrever o nome aqui porque não quero que esse texto seja achado por isso.