Sol em Gêmeos 2019 – 21 de Maio a 20 de Junho

Se Touro me arrastou pela lama, Gêmeos me tirou pra dançar e me rodopiou direto no meio do holofote. Em alguns dias me senti a bicha mais poderosa do mundo, que eu conseguiria conquistar a babilônia na base da conversa e do sorriso. Conversar é geminiano; mas conversar não é só sobre falar, é principalmente sobre ouvir. Ouvir o que está sendo dito, ouvir como está sendo dito, ouvir aonde a língua se segura pra não dedurar o que a mente tá cozinhando; isso sim é SUPER geminiano.

Existem pessoas que são melhores em ouvir do que outras, e existem aquelas que até poderiam ouvir, mas que simplesmente não querem. Lembre-se que não adianta conversar com essa pessoa, por que pra ela você é só eco; e tudo que você falar só vai refletir aquilo que ela quer ouvir. Lembre-se também que todas as pessoas podem ser essa pessoa em determinado momento. Aprenda a identificá-la, aprenda a identificar-se.

Aprenda a ouvir. Aprenda a falar. Aprenda a falar em outra língua. Aprenda a falar sem usar a língua. Aprenda a piscar. Aprenda a aprender, e a guardar as coisas que se aprende em uma gaveta nos corredores do seu cérebro pra poder buscar quando precisar. Um aprendizado fantástico dessa temporada geminiana foi a geolocalização. Sem mapas, sem maps, sem “segue reto e vira a próxima à direita”. Só eu, minha memória e minha intuição. Localização é um talento que nunca tive e que achava que nunca teria, mas voilá, na hora do aperto as cartas caem da manga.

Essa capacidade camaleônica de ler o ambiente e se adaptar responsivamente é incrível e muito útil, mas também acaba sendo muito inebriante, por que você sente que tá surfando no topo da maior onda, tirando o melhor de cada situação e saindo como charmoso sempre. E não dá pra você estar sempre nessa, garota. Às vezes você precisa estar por baixo pra aprender, às vezes você precisa não saber o que falar pra poder pensar de novo e falar melhor, às vezes simplesmente não é sobre você. O processo de se adaptar também acaba te desconectando da estabilidade de ser. De tanto ir e voltar, seu centro acaba ficando fraco, moldável. Reconsiderar é necessário, mas ter um norte imutável é tão necessário quanto. É isso que te tira do fluxo de pensamentos cíclicos e repetitivos. Como um remédio que precisa de uma dose exata para te fazer bem, o reconsiderar pode se tornar um veneno quando não sabemos o limite.

Quem sou? Por que sou? Sou por que posso ou por que quero? Quero mesmo ou só preciso disso agora? Tome cuidado pra não se perder nas perguntas; você não é elas. Tome cuidado pra não ter certeza das respostas. De modo geral tente manter a leveza, e saiba se perdoar. Você é humano e com certeza absoluta uma hora vai agir igual um idiota.

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Sol em Touro 2019 – 20 de Abril a 20 de Maio

Levantar da cama nem sempre é uma tarefa possível, e é por isso que eu coloco pequenas cenouras na minha frente pra quebrar a inércia do motor. Ir na academia pra ficar malhado, trabalhar pra ganhar dinheiro, economizar pra comprar uma coisa melhor… eu confio que um dia eu vou chegar na cenoura; mas eu sei que ela tá sempre longe e que minha força de vontade não é eterna, então eu ponho pequenos pit-stops no caminho; um almoço com os amigos, um café, dois shots de tequila..

A temporada de Touro é engraçada por que no começo parece que vai ser eterna, mas de repente já passou e ninguém nem percebeu. Ou pelo menos foi assim pra mim. Eu tive que me esforçar mais, dormir menos, dar tapas na minha própria cara pra eu não desistir ainda, por que muitos dos meus dilemas pareciam que não iriam acabar. Ao mesmo tempo, quando eu assumia as situações e dava cabo delas, uma por vez, eu resolvia muita coisa com pequenos atos.

Quem é o dono do tempo das coisas? Quem decide a hora do fruto amadurecer? Quem nos diz que ainda é cedo e quem nos diz que já é tarde demais?

Eu gostei de viver minhas certezas de forma mais cadenciada, vagarosa.. pra alguém que tá acostumado a viver a vida no alto-falante e no estandarte, é um grande avanço. Eu ainda passaria dez horas num palanque falando sobre mim mesmo mas, enquanto a oportunidade não chega, eu posso falar um minuto por dia.

Sintonia, melodia, harmonia. Hoje eu sei que a sensualidade que eu busco existe em um estado latente, em alguma camada da consciência que flue e brota como nascente em pontos soltos da paisagem. Mas também sei que posso cuidar do solo para que nasçam as flores, e nutrir minha alma para que eu me permita mais, me arrisque mais e me deseje mais. Sou um lindo Jardim.

Borboletas, fiquem à vontade, tá?

Sol em Áries 2019 – 20 de Março a 20 de Abril

O primeiro terço do Outono. A despedida do Verão. É a temporada de Áries; e eu cheguei a pensar em não falar do signo, pra apelar também para um público mais cético,mas veja bem, agora é tarde demais. Pois sim. A vida é feita de escolhas; e na maior parte delas você não vai poder voltar atrás. Quer coisa mais ariana que isso?

Esse foi um tempo em que eu quis desistir de tudo inúmeras vezes, o que é curioso para um signo conhecido pela ferocidade e garra. Foi um tempo de me domar, e ser mais forte que meus impulsos, mas não foram impulsos de dominar ou destruiu, e sim de parar e me afastar silenciosamente.

Eu senti o coração na superfície da minha pele, emoções que vinham até a epiderme e coçavam pra sair. Acho que a superfície precisava ser sentida. Acho que a minha pele precisava de sangue, fogo e desejo. Construí expectativas só pra vê-las sendo arregaçadas. Senti raiva. Não foi bonito ou prazeroso, mas foi honesto e resolutivo. Entre uma mentira frágil e uma verdade bruta, qual você escolheria?

Houve ainda uma sensação de cansaço, mormaço, trabalho inútil. Uma repetição que não constrói nem destrói, só repete. Tédio. Rádio. Central telefônica. Não desligue, sua ligação é muito importante para nós. Me sinto cansado de manter um sistema falido funcionando. As montanhas de pedra, a que servem? Quem desenhou os arcos e desvios dessas estruturas que nos cercam? Quem construiu os muros que nos prendem? Quem misturou o cimento? Quem fundiu o aço, e com que fogo?

No meio disso tudo vem correndo por mim um desejo incontrolável de mudança. Sinto vontade de me recriar, de me tornar tão forte e intenso que nada disso seja capaz de me parar. Quero prazer e alegria, e quero que venha de dentro. Quero me sentir uma pessoa fresca e leve, sensual e deliciosa. Quero escorrer da minha própria boca, quero costas grudadas na parede e cabelo grudado na cara. Quero me sentir à vontade para me sentir.

Enquanto escrevo e penso nisso, sinto vontade de me esfolar, me ferir e sangrar. Não sei como lidar com esse desejo tão auto destrutivo, mas achei interessante. Me cortar ou perfurar não me atraem, tão pouco me queimar. Não quero machucar a mim mesmo e nem corro esse risco, mas ao fim da temporada de Áries, eu sinto como se devesse ter ralado o joelho ou o cotovelo em algum lugar. Acho que o que eu quero mesmo é fuder.

Houston, eu tenho tantos problemas…

Alô, alô.. Aqui sou eu, João Gabriel, transmitindo do espaço.

Esses dias eu tenho ficado muito cansado da vida na terra, então eu improvisei uma cápsula espacial com o motor da Air Fryer e me catapultei pra fora da atmosfera; mas eu ainda estou em órbita, por que eu achei que vagar pelo espaço sideral ia me gastar muito tempo pra fazer um monte de marmitas e eu ando com bastante preguiça de cozinhar. E eu também não tô tãaao cansado assim da experiência humana a ponto de sair de órbita, só um pouco de saco cheio.

É muito todo dia a mesma coisa, sabe? Trabalhar de segunda a sexta, o fone de ouvido o tempo todo pra não pirar de vez de ficar respirando aquele ar condicionado e aquela luz artificial, voltar pra casa, consumir alguma coisa no tempo livre, fazer alguma coisa no tempo livre, correr atrás dos seus sonhos no tempo livre. Aqui em cima as coisas são bem mais tranquilas, não tenho que trabalhar nem pagar aluguel, e de vez em quando passo por um satélite e eu aproveito pra escutar uma música.

Quando eu fui pra Terra eu achei que as coisas funcionavam de uma maneira muito simples. Eu me lembro de um dia em que eu corri em direção a um monte de pombas e elas saíram voando, e eu achei aquilo lindo!, então eu corri em direção a um monte de cachorros de rua e eles me atacaram. As coisas na Terra são muito complexas, têm muitas variáveis e não é por ter dado certo uma vez que vai dar duas. É como se a verdade estivesse o tempo todo se esquivando. Às vezes desaparece sem dar um sinal, às vezes tá bem na nossa frente, mas sempre tá fora do nosso alcance. Flutuando no espaço eu não tô mais preocupado em alcançar a verdade. Não sei, a falta de oxigênio torna as coisas muito mais simples.

Tem uma galera que diz que encontrar a verdade suprema é o propósito da vida; ao mesmo tempo tem uma galera que diz que o propósito da vida é negar os desejos e impulsos, e tem uma galera que diz que é honrar as leis divinas. Eu costumava me identificar com a galera mística que diz que o propósito da vida é elevar a alma através do autoconhecimento, mas ultimamente tô achando que esse assunto anda muito concorrido e decidi deixar a discussão pros outros.

Lá na Terra o combustível mais potente da minha vida nesses dias tem sido o sexo. Eu tô tentando parar de fumar, tô tentando diminuir na bebida, dormir melhor, fazer mais exercícios, meditar.. tô fazendo isso por que tô preocupado com a saúde do meu corpo e mente e todo o resto, claro, mas o que mais me motiva é pensar que quanto mais saudável meu corpo e mente estiverem mais energia eu vou ter pra transar. Eu poderia dizer que é minha natureza primitiva e animal buscando a reprodução, mas já me deixaram claro que sexo entre dois homens não gera filhos, então acho que é só tesão mesmo.

Não me levem a mal, tem muitas outras coisas que me alegram na vida, eu sei apreciar uma boa comida, um encontro com os amigos, pegar um sol na cara, cuidar das plantas.. o que eu não tô sendo capaz de suportar é o fato de que todo dia essas coisas são empurradas pro segundo plano da existência, e todo dia eu acordo cedo pra criar banners pra um site e fazer uma galera rica ficar mais rica ainda e comprar, sei lá, um frigobar novo pro jatinho. Enquanto isso eu tenho amigos desempregados, e enquanto isso tem gente que tá trabalhando em cativeiro.

Já faz uns anos que eu tô tendo que escolher entre ler ou ver um filme ou ver os amigos ou dar um tempo pra minha cabeça e sentar na varanda pra ver a lua; e eu tava com saudade de ver a lua. Aqui no espaço sideral eu não tenho mais que escolher, mas eu também não tenho o que escolher. Eu também não tenho que me incomodar mais com essas coisas de ser humano e a frustração de ver tudo em um estado tão fudido. Por outro lado eu também não tenho como fazer nada pra mudar isso. Felizmente, a lua daqui de cima tá linda.

Enfim, tô falando isso tudo pra dizer que: eu trouxe uma garrafa de vinho, eu já bebi ela inteira, agora eu tô bêbado e eu não sei mais como faz pra operar esse painel.

Tem como alguém vir me buscar? Queria muito tomar um banho.

O que o incêndio levou a enchente trouxe de volta

Nesse carnaval eu me fantasiei de demônio, me pintei inteiro de vermelho com tinta de teatro e fui pra rua, com uma calça, muitos colares, e uma bolsa. Os colares, a calça e a bolsa voltaram completamente pintados de vermelho da tinta que escorreu do meu corpo, assim como as paredes do meu banheiro, o assento do vaso, o lençol e a fronha do travesseiro. Três dias depois eu ainda tô tirando tinta vermelha do meu cabelo e descobrindo manchas frescas espalhadas pelas minha coisas.

Nessa brincadeira mais umas tantas roupas mancharam de tinta, por que aparentemente, mesmo três dias e um banho de mar depois, eu ainda estou suando vermelho. Uma camisa, que eu comprei da minha amiga há uns cinco ou seis anos atrás e que por sinal é uma das minhas peças de roupa favorita, ficou rosa; e uma cueca, que eu comprei há pouco tempo mas que também me é muito querida, ficou laranja. A camisa rosa eu não curti, mas a cueca eu botei fé.

Eu não sei se minhas roupas vão voltar a ser o que elas eram antes, nem as que foram pintadas diretamente, nem as que só foram lavadas juntas, mas que pegaram a cor das outras mesmo assim. Pode ser que algumas voltem ao normal aos poucos, outras me parecem que ficaram manchadas pra valer; e honestamente, acho que só me resta aceitar. Eu tô firme e forte, deixando de molho, esfregando com a mão.. mas eu prefiro ter a roupa manchada do que rasgar ela na agonia de tirar as manchas. É o melhor que eu posso fazer no momento.

Às vezes, o melhor que eu posso fazer não parece ser o suficiente, especialmente no fim do dia quando eu tenho que voltar pra casa pra dormir sozinho nos meus lençóis manchados, ou quando eu tenho que acordar cedo pra compensar as horas do carnaval em um emprego que tantas vezes me traz muito mais estresse do que alegria; é como se fazer a coisa certa não recompensasse.

Mas a vida já me ensinou mais de uma vez que as respostas que a gente busca raramente aparecem quando a gente quer, mas que elas sempre aparecem quando a gente precisa. No fim tudo segue um fluxo, tudo se endireita de um jeito torto e as coisas não são tão complicadas quanto parecem. Eu me pintei inteiro de vermelho, e me senti incrível; tô triste pela camisa, mas gostei da cueca.

Meu chefe acha que eu não sou um adulto de verdade, por que eu só queria me sujar e não pensei em como me limpar. Eu acho que ele tinha que cuidar da própria vida, mas como é ele quem paga meu salário, dei uma risadinha.


O nome desse texto veio dessa música

Todos os meus sonhos são feitos de pedra. (Parte 2)

Você não vê?

As flores são fracas, mas as raízes são fortes
E se estendem terra adentro como se quisessem tocar o abismo

Você não vê?

Não há mais nada aqui, e não há mais ninguém
Tudo que restou são blocos de concreto e vidro partido, lotes abandonados, rejeito industrial.
Em meio aos restos ficou a estrada.
Todos os lugares estão vazios, mas se você estiver com pressa ainda pode chegar lá, basta pegar a expressa.
Monóxido de carbono, gasolina, ácido de bateria.
Tudo que você tocou virou pedra e tudo que eu toquei virou pó.

Você não vê?

A carne é fraca, mas os dentes são fortes
E mordem através dos anos, quebram os ossos e perfuram a memória.
Não há mais vida aqui, mas você não vai embora, e continua caminhando por paisagens desoladas, muros de cimento, lâmpadas de tungstênio.
E todo dia você diz que vai ser diferente
Mas toda noite termina igual
E você evita olhar para o lado, para o abismo que te acompanha
Como um alcoólatra que evita o primeiro gole
Ou como uma criança que dorme com as luzes ligadas

Você não vê?

Por baixo de toda essa mentira ainda existe algo vivo
Algo que pulsa e ferve e chama seu nome.
Você se esqueceu quem você é?
Você se esqueceu por que está aqui?
Essas paisagens desoladas nos confundem e nos enganam, como se não houvesse nada além disso
Mas esses prédios estão vazios não faz muito tempo
E você chegou aqui não faz muito tempo.
E eu venho ateando fogo nas casas para lhe mostrar que ainda estou vivo.

Você não vê?

Ainda tem um pouco de gasolina no seu carro.
Venha me encontrar.
Eu estou esperando por você.


Sigo com meus experimentos em narrativa, e tô achando mais abstrato do que eu esperava; mas tô tentando não pensar muito e me deixar sentir, sem ter que me ater a trama, cronologia e só escrever esses capítulos que me vêm à mente, à medida que eles vêm..

Fui inspirado pela letra da música Slow Hands do Interpol, e pela estrutura desses poemas em prosa intermináveis, como o I Have a Very Special Plan for This World, do Thomas Ligotti ou o Howl, do Allen Ginsberg. Se alguém souber de alguma coisa assim de um artista brasileiro me manda por favor!!!! Até a próxima.

A amizade moderna é constituída por duas pessoas que ficam encorajando uma a outra a fazer terapia.

Bom dia seus freudianos! Hoje eu quero falar sobre terapia. Mas de novo? Sim. Mas o último post já não foi sobre terapia? Sim. Você é obcecado por terapia por acaso? SIM! Completamente! Eu acho tudo, acho incrível, recomendo pra todo mundo. Atualmente eu faço uma vez a cada duas semanas mas se eu pudesse faria com mais frequência; tipo três vezes por semana, TIPO TRÊS HORAS POR SESSÃO.

cuidado com a bicha doida

Talvez eu tenha um vício. Talvez eu precise de ajuda. TALVEZ…. eu deva levar meu vício em terapia pra terapia. É isso que eu vou fazer. Vou sentar na cadeira, bem sério e dizer “Tânia,” olhando nos olhos dela, “acho que você é um relacionamento tóxico para mim.” Daí eu chamo ela de codependente e mando ela ir procurar ajuda.

Tá, eu exagero, mas uma coisa é verdade; só não faço toda semana por não querer gastar o dinheiro. E é por isso que eu não entendo sessões de terapia de meia hora. Em meia hora eu nem me achei no sofá. Também não entendo a instrutora da academia que eu frequento me dizendo que fez um mês de terapia quando tava se sentindo mal. MANA, UM MÊS? Se eu tivesse feito um mês de terapia quando eu tava mal eu acho que teria saído pior do que eu entrei! Em um mês eu mal tirei aquela primeira camada podre de pensamentos ruins que tava por cima; e só pra descobrir que tava mais podre ainda por baixo!

cuidado com a bicha satânica

Não entendo, mas se funciona pra você, se joga mana! No fim das contas eu sei que cada processo é um processo e cada pessoa é uma pessoa, e que o bom mesmo da vida é descobrir o seu caminho. Às vezes o que funciona pra mim não funcione pros outros. Chocante, eu sei, especialmente por que eu sempre tô certo em tudo; mas a vida tem essa mania de não concordar comigo em absolutamente tudo que eu acredito e penso; e a mim só cabe aceitar. E essa é a coisa que o acompanhamento psicológico mais me ajuda a fazer; primeiro olhar para aquilo que estou pensando e sentindo e depois aceitar as coisas como são.

A terapia te ajuda a parar de se enrolar nos fios soltos da vida e te convida a parar, pegar um único fio, e ir desenrolando ele. Aonde será que esse fio vai dar?
Fazer isso traz uma sensação incrível de leveza e prazer que é tipo um orgasmo simultâneo de todos os seus chakras. Raiva, tristeza, alegria, surpresa, desejo, nojo, resistência, nobreza, ego. Tudo isso vem junto no pacote de ser humano, e com uma frequência absurda a gente se esquece disso.

É fácil falar sobre aceitação, amor próprio, desapego, auto-conhecimento e como todas essas coisas nos fazem bem, mas falar sobre isso tudo é discutir conceitos; por que a ideia de plenitude não tem nada a ver com a experiência de plenitude. Não é sobre abrir os braços na frente do sol e sorrir e anunciar gratidão e fazer aquela pose de yoga que as perna fica pra cima. É sobre ir dormir CHEIO DE PROBLEMA, mas achar até gostoso por que no fim das contas… é tão bom ser humano!

Até a próxima amigos. Tenham um bom fim de semana e, VÃO SE TRATAR!


O título desse post veio desse tweet.

Dia de terapia

Então, como estás?

“Essa semana foi impossível, já faz uns quatro dias que eu fico acordada até não aguentar mais e só vou deitar quando eu tô caindo de sono. Se eu tento dormir antes eu não consigo e fico rolando na cama e minha cabeça não me deixa em paz! Pelo menos acordada eu faço alguma coisa e não me sinto tão inútil. Mas o dia seguinte é pior ainda, porque eu não consigo ficar de pé de cansaço e me sinto uma fracassada, que não consegue nem dormir na hora certa.” Rebeca para de falar, mas morde os lábios como quem tem mais a dizer, e olha para a terapeuta com desconforto.

Terapeuta julgando Rebeca

A terapeuta respira fundo e mantém o silêncio por um breve momento. Depois, se levanta, vai até uma estante e alcança um livro grosso, de capa dura e lombada decorada. Ela apoia o livro no colo e abre nas primeiras páginas, para consultar o sumário.

O livro vermelho de jung

Rebeca espera, tentando conter a ansiedade e manter a compostura ao mesmo tempo, e nitidamente não sendo capaz de fazer nenhum. “É como eu imaginava, Rebeca.” Mais uma pausa dramática. “Você quer transar com o seu pai.” O ar da sala fica azedo. “Quê?” “Sim, está escrito aqui.” A terapeuta vira o livro em sua direção. Nas páginas há uma grande tabela de correlações; em uma das células está escrito Fica acordada pra não se sentir fracassada e a célula ao lado diz Quer transar com o próprio pai.  Rebeca permanece atônita. Ela olha para o livro, depois para a terapeuta, depois para o livro de novo.

CONTROLE-SE REBECA!

“Vamos ser honestas, Rebeca; você é bem sequelada.” A terapeuta faz um gesto vago com a mão, de que disse algo óbvio. “E é importante que você entenda; ter problemas é algo completamente normal! Eu por exemplo tenho inveja do pênis da minha mãe.” Ela vira o livro em outra página da tabela e aponta para uma linha; Investe todo o seu tempo no trabalho pra não lidar com os próprios problemas, e na célula ao lado, Tem inveja do pênis da própria mãe. “Eu também não entendi muito bem, mas a psicologia é uma coisa complicada.” Rebeca concorda, agora um pouco mais calma. Ela toma um gole d’água. “É.. eu acho que sim. É difícil passar por isso por me sentir tão exposta mas… eu quero enfrentar isso!” A terapeuta sorri levemente. “Sim, sim, que bom.. vou ser sincera com você Rebeca, seu caso é beeem complicado, mesmo, mas nós vamos lidar juntas. Aceitar a própria situação é o primeiro passo para mudar.” Rebeca sorri.

o autoconhecimento muda vidas!

“Agora, nosso tempo já acabou, e minha próxima cliente já está esperando.” A terapeuta se levanta, se aproxima de Rebeca e sussurra. “Ela é uma mulher adulta que ainda não superou a fase anal da irmã mais velha” Rebeca abafa uma risada com as mãos. “Sim, completamente traumatizada.” Elas se despedem e Rebeca sai, se sentindo aliviada e confiante. Naquela noite, dormiu como nunca antes.

bons sonhos, Rebeca!

Todos os meus sonhos são feitos de pó. (Parte 1)

Tem alguma coisa acontecendo. Sei que faz pouco sentido falar essa frase sem contextualizar, por que com certeza tem alguma coisa acontecendo. Em qualquer lugar do mundo a qualquer momento têm uma infinidade de coisas acontecendo.

Um pássaro que voa, uma pessoa que tem um plano, um texto que é lido; essas coisas acontecem o tempo todo. Existem também coisas mais incomuns, selecionadas, que não acontecem com tanta frequência. Um pássaro que pousa no seu ombro, uma pessoa que ganha na loteria, um texto que não deveria ser lido por ninguém. Mas também existem aquelas coisas realmente únicas, que são maiores e mais complexas e tem braços por toda a parte.

Coisas que não acontecem como resultado de uma ação ou um agente, mas de ações e agentes múltiplos, que levam um ao outro e que se ramificam em novas ações e novos agentes, como uma rede subterrânea de raízes. Coisas que sugam e absorvem aqueles que passam muito perto.

Coisas que acontecem a passos muito muito lentos. Como um vazamento oculto que gota a gota contamina o rio. Como o surgimento de uma nova espécie, fruto de inúmeras e microscópicas mutações. Como a pressão do solo criando cristais.

Mas não é sobre as coisas que eu estou falando. É sobre o acontecer.

É sobre sentir o movimento microscópico, sobre a mutação. É sobre ouvir as placas tectônicas se arrastando, uma contra a outra. É sobre ver a cidade sendo contaminada a cada gole de água.

Tem alguma coisa acontecendo. Eu não sei o quê, mas eu sei que está.

Ontem à noite, quando eu finalmente estacionei o carro e desliguei o motor, eu ouvi uma risada. Foi curta e abafada, quase rápida demais pra ser ouvida, mas eu ouvi, por que vinha de dentro da minha cabeça. Eu ouvi por trás dos meus olhos, por trás das fibras e dos músculos. Era a uma risada orgulhosa, ou melhor, satisfeita. Como a de alguém que via tudo sair conforme o planejado. E depois, o silêncio.


Faz um tempo que eu tô me propondo a encontrar novas maneiras de escrever e contar histórias; uma maneira que mescle poesia e narrativa com as crônicas/dissertativas que eu já tenho facilidade em fazer. Esse texto é uma primeira tentativa disso. Fui inspirado pela música Silent From Above, pelo episódio Dana de Welcome to Night Vale, e pelo livro A cor que caiu do espaço, de H.P. Lovecraft.

Se você leu e quiser conversar, dar feedback ou viajar nas ideias, comenta!

Tem muita coisa guardada que eu preciso falar.

Você acredita em segundas chances?

Com a oportunidade de voltar a escrever aqui veio a ansiedade de escrever. Veio não, voltou. A ansiedade voltou, exatamente da mesma maneira e no mesmo lugar em que estava quando eu decidi parar, há uns anos atrás; tipo quando você desliga a máquina de lavar no meio do ciclo, e quando você liga de novo ela já começa centrifugando e tremendo e saindo do lugar, por que os pés estão desalinhados.

Você acredita em lábios que dizem adeus, mas olhos que dizem até logo?

Criar é um ato perigoso. Perigoso porque quando você faz algo, e sente que aquilo foi bom, você sente felicidade, e é uma felicidade que você não sente em outro lugar, comendo uma comida boa, saindo com os amigos.. É um momento único de inspiração, emoção, fritação, bota a mão no coração.. daí você vicia e quer sentir isso de novo e de novo. E receber elogios dá um barato maior ainda. Eu definitivamente tenho um problema em receber elogios; e não é dificuldade em aceitar, é vício em receber mesmo.

Você acredita em estar na hora certa e no lugar certo?

Quem teve a ideia de voltar com o blog foi o Eduardo, mas no fundo do meu coração eu estava pedindo pro universo para que isso acontecesse. No mesmo dia em que ele veio falar comigo eu estava pensando no quanto eu sentia saudade de escrever para um blog, e que eu nunca consegui encontrar um espaço ou plataforma onde eu criasse o que eu criava aqui. Por que o que eu criava aqui era pura e completa ABOBRINHA. Temos baboseira do mais alto nível de pureza. Baboseira extra virgem. Ajuda a reduzir os níveis de colesterol no sangue, hidrata os cabelos e a pele. Use uma colher de sopa todos os dias!

Você tem medo de recomeçar?

O verdadeiro perigo de criar começa no momento em que você não consegue atingir as expectativas. Lá está você, chapada de receber elogio, criando e se superando, se sentindo inabalável. Eis que alguma coisa planta uma minhoca na sua cabeça. Você olha pra sua obra e ela está fraca, ruim, chata, anêmica. As expectativas rosnam pra você como cachorros desconfiados; às vezes elas vêm de fora, mas muitas vezes elas vêm de nós mesmos. Você diz que “Não!” e faz cara de confiante, “Eu vou dar o meu melhor!” E aí o seu melhor fica uma bosta, e as expectativas te comem.

Você corta o fluxo de aprovação. A abstinência bate e você fica irritada, triste, paranóico. Você treme nas extremidades e sua frio. Você arranca os cabelo e grita. Você é amarrada numa camisa de força e trancada numa cela com paredes macias. É um momento sombrio na sua vida, mas o tempo passa e com força de vontade e amor próprio, você consegue sair desse poço! Aos pouco você se reabilita e volta; posta uma selfie naquela luz boa. Você vai sobreviver!

Parabéns, eu tenho tanto orgulho de você.

Você já prometeu pra si mesmo que não iria se apaixonar novamente?

É bom te ver de novo. Senti sua falta. Vem cá, vem.

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