Sol em Áries 2019 – 20 de Março a 20 de Abril

O primeiro terço do Outono. A despedida do Verão. É a temporada de Áries; e eu cheguei a pensar em não falar do signo, pra apelar também para um público mais cético,mas veja bem, agora é tarde demais. Pois sim. A vida é feita de escolhas; e na maior parte delas você não vai poder voltar atrás. Quer coisa mais ariana que isso?

Esse foi um tempo em que eu quis desistir de tudo inúmeras vezes, o que é curioso para um signo conhecido pela ferocidade e garra. Foi um tempo de me domar, e ser mais forte que meus impulsos, mas não foram impulsos de dominar ou destruiu, e sim de parar e me afastar silenciosamente.

Eu senti o coração na superfície da minha pele, emoções que vinham até a epiderme e coçavam pra sair. Acho que a superfície precisava ser sentida. Acho que a minha pele precisava de sangue, fogo e desejo. Construí expectativas só pra vê-las sendo arregaçadas. Senti raiva. Não foi bonito ou prazeroso, mas foi honesto e resolutivo. Entre uma mentira frágil e uma verdade bruta, qual você escolheria?

Houve ainda uma sensação de cansaço, mormaço, trabalho inútil. Uma repetição que não constrói nem destrói, só repete. Tédio. Rádio. Central telefônica. Não desligue, sua ligação é muito importante para nós. Me sinto cansado de manter um sistema falido funcionando. As montanhas de pedra, a que servem? Quem desenhou os arcos e desvios dessas estruturas que nos cercam? Quem construiu os muros que nos prendem? Quem misturou o cimento? Quem fundiu o aço, e com que fogo?

No meio disso tudo vem correndo por mim um desejo incontrolável de mudança. Sinto vontade de me recriar, de me tornar tão forte e intenso que nada disso seja capaz de me parar. Quero prazer e alegria, e quero que venha de dentro. Quero me sentir uma pessoa fresca e leve, sensual e deliciosa. Quero escorrer da minha própria boca, quero costas grudadas na parede e cabelo grudado na cara. Quero me sentir à vontade para me sentir.

Enquanto escrevo e penso nisso, sinto vontade de me esfolar, me ferir e sangrar. Não sei como lidar com esse desejo tão auto destrutivo, mas achei interessante. Me cortar ou perfurar não me atraem, tão pouco me queimar. Não quero machucar a mim mesmo e nem corro esse risco, mas ao fim da temporada de Áries, eu sinto como se devesse ter ralado o joelho ou o cotovelo em algum lugar. Acho que o que eu quero mesmo é fuder.

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Houston, eu tenho tantos problemas…

Alô, alô.. Aqui sou eu, João Gabriel, transmitindo do espaço.

Esses dias eu tenho ficado muito cansado da vida na terra, então eu improvisei uma cápsula espacial com o motor da Air Fryer e me catapultei pra fora da atmosfera; mas eu ainda estou em órbita, por que eu achei que vagar pelo espaço sideral ia me gastar muito tempo pra fazer um monte de marmitas e eu ando com bastante preguiça de cozinhar. E eu também não tô tãaao cansado assim da experiência humana a ponto de sair de órbita, só um pouco de saco cheio.

É muito todo dia a mesma coisa, sabe? Trabalhar de segunda a sexta, o fone de ouvido o tempo todo pra não pirar de vez de ficar respirando aquele ar condicionado e aquela luz artificial, voltar pra casa, consumir alguma coisa no tempo livre, fazer alguma coisa no tempo livre, correr atrás dos seus sonhos no tempo livre. Aqui em cima as coisas são bem mais tranquilas, não tenho que trabalhar nem pagar aluguel, e de vez em quando passo por um satélite e eu aproveito pra escutar uma música.

Quando eu fui pra Terra eu achei que as coisas funcionavam de uma maneira muito simples. Eu me lembro de um dia em que eu corri em direção a um monte de pombas e elas saíram voando, e eu achei aquilo lindo!, então eu corri em direção a um monte de cachorros de rua e eles me atacaram. As coisas na Terra são muito complexas, têm muitas variáveis e não é por ter dado certo uma vez que vai dar duas. É como se a verdade estivesse o tempo todo se esquivando. Às vezes desaparece sem dar um sinal, às vezes tá bem na nossa frente, mas sempre tá fora do nosso alcance. Flutuando no espaço eu não tô mais preocupado em alcançar a verdade. Não sei, a falta de oxigênio torna as coisas muito mais simples.

Tem uma galera que diz que encontrar a verdade suprema é o propósito da vida; ao mesmo tempo tem uma galera que diz que o propósito da vida é negar os desejos e impulsos, e tem uma galera que diz que é honrar as leis divinas. Eu costumava me identificar com a galera mística que diz que o propósito da vida é elevar a alma através do autoconhecimento, mas ultimamente tô achando que esse assunto anda muito concorrido e decidi deixar a discussão pros outros.

Lá na Terra o combustível mais potente da minha vida nesses dias tem sido o sexo. Eu tô tentando parar de fumar, tô tentando diminuir na bebida, dormir melhor, fazer mais exercícios, meditar.. tô fazendo isso por que tô preocupado com a saúde do meu corpo e mente e todo o resto, claro, mas o que mais me motiva é pensar que quanto mais saudável meu corpo e mente estiverem mais energia eu vou ter pra transar. Eu poderia dizer que é minha natureza primitiva e animal buscando a reprodução, mas já me deixaram claro que sexo entre dois homens não gera filhos, então acho que é só tesão mesmo.

Não me levem a mal, tem muitas outras coisas que me alegram na vida, eu sei apreciar uma boa comida, um encontro com os amigos, pegar um sol na cara, cuidar das plantas.. o que eu não tô sendo capaz de suportar é o fato de que todo dia essas coisas são empurradas pro segundo plano da existência, e todo dia eu acordo cedo pra criar banners pra um site e fazer uma galera rica ficar mais rica ainda e comprar, sei lá, um frigobar novo pro jatinho. Enquanto isso eu tenho amigos desempregados, e enquanto isso tem gente que tá trabalhando em cativeiro.

Já faz uns anos que eu tô tendo que escolher entre ler ou ver um filme ou ver os amigos ou dar um tempo pra minha cabeça e sentar na varanda pra ver a lua; e eu tava com saudade de ver a lua. Aqui no espaço sideral eu não tenho mais que escolher, mas eu também não tenho o que escolher. Eu também não tenho que me incomodar mais com essas coisas de ser humano e a frustração de ver tudo em um estado tão fudido. Por outro lado eu também não tenho como fazer nada pra mudar isso. Felizmente, a lua daqui de cima tá linda.

Enfim, tô falando isso tudo pra dizer que: eu trouxe uma garrafa de vinho, eu já bebi ela inteira, agora eu tô bêbado e eu não sei mais como faz pra operar esse painel.

Tem como alguém vir me buscar? Queria muito tomar um banho.

O que o incêndio levou a enchente trouxe de volta

Nesse carnaval eu me fantasiei de demônio, me pintei inteiro de vermelho com tinta de teatro e fui pra rua, com uma calça, muitos colares, e uma bolsa. Os colares, a calça e a bolsa voltaram completamente pintados de vermelho da tinta que escorreu do meu corpo, assim como as paredes do meu banheiro, o assento do vaso, o lençol e a fronha do travesseiro. Três dias depois eu ainda tô tirando tinta vermelha do meu cabelo e descobrindo manchas frescas espalhadas pelas minha coisas.

Nessa brincadeira mais umas tantas roupas mancharam de tinta, por que aparentemente, mesmo três dias e um banho de mar depois, eu ainda estou suando vermelho. Uma camisa, que eu comprei da minha amiga há uns cinco ou seis anos atrás e que por sinal é uma das minhas peças de roupa favorita, ficou rosa; e uma cueca, que eu comprei há pouco tempo mas que também me é muito querida, ficou laranja. A camisa rosa eu não curti, mas a cueca eu botei fé.

Eu não sei se minhas roupas vão voltar a ser o que elas eram antes, nem as que foram pintadas diretamente, nem as que só foram lavadas juntas, mas que pegaram a cor das outras mesmo assim. Pode ser que algumas voltem ao normal aos poucos, outras me parecem que ficaram manchadas pra valer; e honestamente, acho que só me resta aceitar. Eu tô firme e forte, deixando de molho, esfregando com a mão.. mas eu prefiro ter a roupa manchada do que rasgar ela na agonia de tirar as manchas. É o melhor que eu posso fazer no momento.

Às vezes, o melhor que eu posso fazer não parece ser o suficiente, especialmente no fim do dia quando eu tenho que voltar pra casa pra dormir sozinho nos meus lençóis manchados, ou quando eu tenho que acordar cedo pra compensar as horas do carnaval em um emprego que tantas vezes me traz muito mais estresse do que alegria; é como se fazer a coisa certa não recompensasse.

Mas a vida já me ensinou mais de uma vez que as respostas que a gente busca raramente aparecem quando a gente quer, mas que elas sempre aparecem quando a gente precisa. No fim tudo segue um fluxo, tudo se endireita de um jeito torto e as coisas não são tão complicadas quanto parecem. Eu me pintei inteiro de vermelho, e me senti incrível; tô triste pela camisa, mas gostei da cueca.

Meu chefe acha que eu não sou um adulto de verdade, por que eu só queria me sujar e não pensei em como me limpar. Eu acho que ele tinha que cuidar da própria vida, mas como é ele quem paga meu salário, dei uma risadinha.


O nome desse texto veio dessa música

Todos os meus sonhos são feitos de pedra. (Parte 2)

Você não vê?

As flores são fracas, mas as raízes são fortes
E se estendem terra adentro como se quisessem tocar o abismo

Você não vê?

Não há mais nada aqui, e não há mais ninguém
Tudo que restou são blocos de concreto e vidro partido, lotes abandonados, rejeito industrial.
Em meio aos restos ficou a estrada.
Todos os lugares estão vazios, mas se você estiver com pressa ainda pode chegar lá, basta pegar a expressa.
Monóxido de carbono, gasolina, ácido de bateria.
Tudo que você tocou virou pedra e tudo que eu toquei virou pó.

Você não vê?

A carne é fraca, mas os dentes são fortes
E mordem através dos anos, quebram os ossos e perfuram a memória.
Não há mais vida aqui, mas você não vai embora, e continua caminhando por paisagens desoladas, muros de cimento, lâmpadas de tungstênio.
E todo dia você diz que vai ser diferente
Mas toda noite termina igual
E você evita olhar para o lado, para o abismo que te acompanha
Como um alcoólatra que evita o primeiro gole
Ou como uma criança que dorme com as luzes ligadas

Você não vê?

Por baixo de toda essa mentira ainda existe algo vivo
Algo que pulsa e ferve e chama seu nome.
Você se esqueceu quem você é?
Você se esqueceu por que está aqui?
Essas paisagens desoladas nos confundem e nos enganam, como se não houvesse nada além disso
Mas esses prédios estão vazios não faz muito tempo
E você chegou aqui não faz muito tempo.
E eu venho ateando fogo nas casas para lhe mostrar que ainda estou vivo.

Você não vê?

Ainda tem um pouco de gasolina no seu carro.
Venha me encontrar.
Eu estou esperando por você.


Sigo com meus experimentos em narrativa, e tô achando mais abstrato do que eu esperava; mas tô tentando não pensar muito e me deixar sentir, sem ter que me ater a trama, cronologia e só escrever esses capítulos que me vêm à mente, à medida que eles vêm..

Fui inspirado pela letra da música Slow Hands do Interpol, e pela estrutura desses poemas em prosa intermináveis, como o I Have a Very Special Plan for This World, do Thomas Ligotti ou o Howl, do Allen Ginsberg. Se alguém souber de alguma coisa assim de um artista brasileiro me manda por favor!!!! Até a próxima.

A amizade moderna é constituída por duas pessoas que ficam encorajando uma a outra a fazer terapia.

Bom dia seus freudianos! Hoje eu quero falar sobre terapia. Mas de novo? Sim. Mas o último post já não foi sobre terapia? Sim. Você é obcecado por terapia por acaso? SIM! Completamente! Eu acho tudo, acho incrível, recomendo pra todo mundo. Atualmente eu faço uma vez a cada duas semanas mas se eu pudesse faria com mais frequência; tipo três vezes por semana, TIPO TRÊS HORAS POR SESSÃO.

cuidado com a bicha doida

Talvez eu tenha um vício. Talvez eu precise de ajuda. TALVEZ…. eu deva levar meu vício em terapia pra terapia. É isso que eu vou fazer. Vou sentar na cadeira, bem sério e dizer “Tânia,” olhando nos olhos dela, “acho que você é um relacionamento tóxico para mim.” Daí eu chamo ela de codependente e mando ela ir procurar ajuda.

Tá, eu exagero, mas uma coisa é verdade; só não faço toda semana por não querer gastar o dinheiro. E é por isso que eu não entendo sessões de terapia de meia hora. Em meia hora eu nem me achei no sofá. Também não entendo a instrutora da academia que eu frequento me dizendo que fez um mês de terapia quando tava se sentindo mal. MANA, UM MÊS? Se eu tivesse feito um mês de terapia quando eu tava mal eu acho que teria saído pior do que eu entrei! Em um mês eu mal tirei aquela primeira camada podre de pensamentos ruins que tava por cima; e só pra descobrir que tava mais podre ainda por baixo!

cuidado com a bicha satânica

Não entendo, mas se funciona pra você, se joga mana! No fim das contas eu sei que cada processo é um processo e cada pessoa é uma pessoa, e que o bom mesmo da vida é descobrir o seu caminho. Às vezes o que funciona pra mim não funcione pros outros. Chocante, eu sei, especialmente por que eu sempre tô certo em tudo; mas a vida tem essa mania de não concordar comigo em absolutamente tudo que eu acredito e penso; e a mim só cabe aceitar. E essa é a coisa que o acompanhamento psicológico mais me ajuda a fazer; primeiro olhar para aquilo que estou pensando e sentindo e depois aceitar as coisas como são.

A terapia te ajuda a parar de se enrolar nos fios soltos da vida e te convida a parar, pegar um único fio, e ir desenrolando ele. Aonde será que esse fio vai dar?
Fazer isso traz uma sensação incrível de leveza e prazer que é tipo um orgasmo simultâneo de todos os seus chakras. Raiva, tristeza, alegria, surpresa, desejo, nojo, resistência, nobreza, ego. Tudo isso vem junto no pacote de ser humano, e com uma frequência absurda a gente se esquece disso.

É fácil falar sobre aceitação, amor próprio, desapego, auto-conhecimento e como todas essas coisas nos fazem bem, mas falar sobre isso tudo é discutir conceitos; por que a ideia de plenitude não tem nada a ver com a experiência de plenitude. Não é sobre abrir os braços na frente do sol e sorrir e anunciar gratidão e fazer aquela pose de yoga que as perna fica pra cima. É sobre ir dormir CHEIO DE PROBLEMA, mas achar até gostoso por que no fim das contas… é tão bom ser humano!

Até a próxima amigos. Tenham um bom fim de semana e, VÃO SE TRATAR!


O título desse post veio desse tweet.

Dia de terapia

Então, como estás?

“Essa semana foi impossível, já faz uns quatro dias que eu fico acordada até não aguentar mais e só vou deitar quando eu tô caindo de sono. Se eu tento dormir antes eu não consigo e fico rolando na cama e minha cabeça não me deixa em paz! Pelo menos acordada eu faço alguma coisa e não me sinto tão inútil. Mas o dia seguinte é pior ainda, porque eu não consigo ficar de pé de cansaço e me sinto uma fracassada, que não consegue nem dormir na hora certa.” Rebeca para de falar, mas morde os lábios como quem tem mais a dizer, e olha para a terapeuta com desconforto.

Terapeuta julgando Rebeca

A terapeuta respira fundo e mantém o silêncio por um breve momento. Depois, se levanta, vai até uma estante e alcança um livro grosso, de capa dura e lombada decorada. Ela apoia o livro no colo e abre nas primeiras páginas, para consultar o sumário.

O livro vermelho de jung

Rebeca espera, tentando conter a ansiedade e manter a compostura ao mesmo tempo, e nitidamente não sendo capaz de fazer nenhum. “É como eu imaginava, Rebeca.” Mais uma pausa dramática. “Você quer transar com o seu pai.” O ar da sala fica azedo. “Quê?” “Sim, está escrito aqui.” A terapeuta vira o livro em sua direção. Nas páginas há uma grande tabela de correlações; em uma das células está escrito Fica acordada pra não se sentir fracassada e a célula ao lado diz Quer transar com o próprio pai.  Rebeca permanece atônita. Ela olha para o livro, depois para a terapeuta, depois para o livro de novo.

CONTROLE-SE REBECA!

“Vamos ser honestas, Rebeca; você é bem sequelada.” A terapeuta faz um gesto vago com a mão, de que disse algo óbvio. “E é importante que você entenda; ter problemas é algo completamente normal! Eu por exemplo tenho inveja do pênis da minha mãe.” Ela vira o livro em outra página da tabela e aponta para uma linha; Investe todo o seu tempo no trabalho pra não lidar com os próprios problemas, e na célula ao lado, Tem inveja do pênis da própria mãe. “Eu também não entendi muito bem, mas a psicologia é uma coisa complicada.” Rebeca concorda, agora um pouco mais calma. Ela toma um gole d’água. “É.. eu acho que sim. É difícil passar por isso por me sentir tão exposta mas… eu quero enfrentar isso!” A terapeuta sorri levemente. “Sim, sim, que bom.. vou ser sincera com você Rebeca, seu caso é beeem complicado, mesmo, mas nós vamos lidar juntas. Aceitar a própria situação é o primeiro passo para mudar.” Rebeca sorri.

o autoconhecimento muda vidas!

“Agora, nosso tempo já acabou, e minha próxima cliente já está esperando.” A terapeuta se levanta, se aproxima de Rebeca e sussurra. “Ela é uma mulher adulta que ainda não superou a fase anal da irmã mais velha” Rebeca abafa uma risada com as mãos. “Sim, completamente traumatizada.” Elas se despedem e Rebeca sai, se sentindo aliviada e confiante. Naquela noite, dormiu como nunca antes.

bons sonhos, Rebeca!

Todos os meus sonhos são feitos de pó. (Parte 1)

Tem alguma coisa acontecendo. Sei que faz pouco sentido falar essa frase sem contextualizar, por que com certeza tem alguma coisa acontecendo. Em qualquer lugar do mundo a qualquer momento têm uma infinidade de coisas acontecendo.

Um pássaro que voa, uma pessoa que tem um plano, um texto que é lido; essas coisas acontecem o tempo todo. Existem também coisas mais incomuns, selecionadas, que não acontecem com tanta frequência. Um pássaro que pousa no seu ombro, uma pessoa que ganha na loteria, um texto que não deveria ser lido por ninguém. Mas também existem aquelas coisas realmente únicas, que são maiores e mais complexas e tem braços por toda a parte.

Coisas que não acontecem como resultado de uma ação ou um agente, mas de ações e agentes múltiplos, que levam um ao outro e que se ramificam em novas ações e novos agentes, como uma rede subterrânea de raízes. Coisas que sugam e absorvem aqueles que passam muito perto.

Coisas que acontecem a passos muito muito lentos. Como um vazamento oculto que gota a gota contamina o rio. Como o surgimento de uma nova espécie, fruto de inúmeras e microscópicas mutações. Como a pressão do solo criando cristais.

Mas não é sobre as coisas que eu estou falando. É sobre o acontecer.

É sobre sentir o movimento microscópico, sobre a mutação. É sobre ouvir as placas tectônicas se arrastando, uma contra a outra. É sobre ver a cidade sendo contaminada a cada gole de água.

Tem alguma coisa acontecendo. Eu não sei o quê, mas eu sei que está.

Ontem à noite, quando eu finalmente estacionei o carro e desliguei o motor, eu ouvi uma risada. Foi curta e abafada, quase rápida demais pra ser ouvida, mas eu ouvi, por que vinha de dentro da minha cabeça. Eu ouvi por trás dos meus olhos, por trás das fibras e dos músculos. Era a uma risada orgulhosa, ou melhor, satisfeita. Como a de alguém que via tudo sair conforme o planejado. E depois, o silêncio.


Faz um tempo que eu tô me propondo a encontrar novas maneiras de escrever e contar histórias; uma maneira que mescle poesia e narrativa com as crônicas/dissertativas que eu já tenho facilidade em fazer. Esse texto é uma primeira tentativa disso. Fui inspirado pela música Silent From Above, pelo episódio Dana de Welcome to Night Vale, e pelo livro A cor que caiu do espaço, de H.P. Lovecraft.

Se você leu e quiser conversar, dar feedback ou viajar nas ideias, comenta!

Tem muita coisa guardada que eu preciso falar.

Você acredita em segundas chances?

Com a oportunidade de voltar a escrever aqui veio a ansiedade de escrever. Veio não, voltou. A ansiedade voltou, exatamente da mesma maneira e no mesmo lugar em que estava quando eu decidi parar, há uns anos atrás; tipo quando você desliga a máquina de lavar no meio do ciclo, e quando você liga de novo ela já começa centrifugando e tremendo e saindo do lugar, por que os pés estão desalinhados.

Você acredita em lábios que dizem adeus, mas olhos que dizem até logo?

Criar é um ato perigoso. Perigoso porque quando você faz algo, e sente que aquilo foi bom, você sente felicidade, e é uma felicidade que você não sente em outro lugar, comendo uma comida boa, saindo com os amigos.. É um momento único de inspiração, emoção, fritação, bota a mão no coração.. daí você vicia e quer sentir isso de novo e de novo. E receber elogios dá um barato maior ainda. Eu definitivamente tenho um problema em receber elogios; e não é dificuldade em aceitar, é vício em receber mesmo.

Você acredita em estar na hora certa e no lugar certo?

Quem teve a ideia de voltar com o blog foi o Eduardo, mas no fundo do meu coração eu estava pedindo pro universo para que isso acontecesse. No mesmo dia em que ele veio falar comigo eu estava pensando no quanto eu sentia saudade de escrever para um blog, e que eu nunca consegui encontrar um espaço ou plataforma onde eu criasse o que eu criava aqui. Por que o que eu criava aqui era pura e completa ABOBRINHA. Temos baboseira do mais alto nível de pureza. Baboseira extra virgem. Ajuda a reduzir os níveis de colesterol no sangue, hidrata os cabelos e a pele. Use uma colher de sopa todos os dias!

Você tem medo de recomeçar?

O verdadeiro perigo de criar começa no momento em que você não consegue atingir as expectativas. Lá está você, chapada de receber elogio, criando e se superando, se sentindo inabalável. Eis que alguma coisa planta uma minhoca na sua cabeça. Você olha pra sua obra e ela está fraca, ruim, chata, anêmica. As expectativas rosnam pra você como cachorros desconfiados; às vezes elas vêm de fora, mas muitas vezes elas vêm de nós mesmos. Você diz que “Não!” e faz cara de confiante, “Eu vou dar o meu melhor!” E aí o seu melhor fica uma bosta, e as expectativas te comem.

Você corta o fluxo de aprovação. A abstinência bate e você fica irritada, triste, paranóico. Você treme nas extremidades e sua frio. Você arranca os cabelo e grita. Você é amarrada numa camisa de força e trancada numa cela com paredes macias. É um momento sombrio na sua vida, mas o tempo passa e com força de vontade e amor próprio, você consegue sair desse poço! Aos pouco você se reabilita e volta; posta uma selfie naquela luz boa. Você vai sobreviver!

Parabéns, eu tenho tanto orgulho de você.

Você já prometeu pra si mesmo que não iria se apaixonar novamente?

É bom te ver de novo. Senti sua falta. Vem cá, vem.

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Era disso que Leonard Cohen estava falando quando compôs Hey that’s no way to say goodbye.mp3

Vou tirar o band aid bem rápido: tô largando o blog de vez.

Eu não me sinto confortável nem à vontade pra escrever aqui há um tempo (tanto que não escrevo), eu tentei me motivar de diversas maneiras e acabei criando mais pressão em cima de mim fazendo uma coisa megalomaníaca que honestamente eu não tenho nem condição de manter. Além disso muitas coisas aconteceram recentemente envolvendo o blog indiretamente e eu sinto que não sou mais bem vindo no meu próprio clubinho.

uma última stock image por todos esses anos

Eu ainda quero continuar escrevendo, mas aqui eu não vou mais, pelo menos por agora. Se vocês me virem por aí a gente se beija, se quiserem saber por onde eu ando comentem aqui, sei lá, a internet não é tão grande assim.

E quanto a você, Timing Perfeito. ME BEIJE UMA ÚLTIMA VEZ, CANALHA, ME BEIJE E ME DEIXE IR. Se realmente fomos feitos um pro outro, nossos caminhos se cruzarão novamente, então adeus, meu querido, meu amado. Adeus.

A Infiltração do Oriente e a Infiltração do Ocidente (O vazamento silencioso)

Olha gente, eu sei que não é de bom tom chegar depois de tanto tempo contando os problemas financeiros, mas acontece que minha casa tá caindo aos pedaço. Eu já disse aqui, que quando eu inventei de me mudar pra fazer faculdade tudo parecia uma ideia maravilhosa, mas que logo eu descobriria que eu estava MUITO errado. Eu acho que eu esqueci de mencionar que o espaço físico de minha casa tem muita culpa nisso.

Convenhamos que depois de 10 temporadas de friends e 18 anos de casa dos meus pais é normal eu achar que morar sozinho seria super divertido, que eu teria vizinhos legais, que minha casa ia ser linda e decoradíssima, que meu apartamento ia ser a representação dos melhores anos da minha vida e que geladeiras teriam comida. Ninguém me disse que casas seriam tão difíceis de cuidar, nem tão caras. Eu não era burro a ponto de achar que casas seriam auto limpantes, mas eu tinha na minha cabeça que elas ficavam inteiras, pelo menos; mas em apenas dois anos morando sozinho eu passei mais tempo tendo problemas do que não tendo problemas.

Vou contar essa história em capítulos por que eu tô me sentindo meio Lars Von Trier recentemente. Tudo começou com o buraco na parede.

PORÉM DIFERENTE DE MIM LARS NÃO TINHA QUE FICAR
SE PREOCUPANDO COM BURACO NA PAREDE

Capítulo 1 – O BURACO NA PAREDE

Logo no primeiro apartamento o meu quarto tinha um buraco na parede onde costumava ficar um ar condicionado, mas aparentemente a dona não aguentaria ficar longe do seu amado ar e decidiu ARRANCAR ELE COM AS PRÓPRIAS MÃOS, e em vez de tampar o buraco com tijolos e cimento, que é o que normalmente se usa pra fazer paredes, ela me vem com uma placa de MDF e grampeia na parede; e eu não tô exagerando, por que se ela tivesse tapado o buraco com creme dental e papel machê faria mais efeito.

Um dia eu entro no meu quarto e ele está INUNDADO.


foto minha em tempo real durante a inundação

Numa dessas chuvas cotidianas eis que toda a água do mundo decidiu entrar pelo buraco, escorrer pela parede até o meu criado mudo, molhar TUDO que estava em cima dele e inundar meu chão. Eu mantive a calma nessa situação e em vez de me desesperar apenas me joguei na água para que minhas lágrimas se confundissem com a poça e virassem poesia. Depois que eu me recuperei, tirei fotos de toda essa presepada pra ~fazer valer os meus direitos de consumidor e enviei pra imobiliária com o assunto ATÉ QUANDO??

Eu imagino que eles tenham impresso as fotos e usado pra fazer aviões de papel e improvisar tererês nas tranças dos funcionários; por que eu nunca recebi uma resposta. Um ano depois eu já tinha acumulado uma coletânea de 1001 dilúvios pra sofrer antes de morrer e outra de todos os problemas do apartamento que a proprietária apenas se recusava a consertar; daí a gente ficou cansado de ser HUMILHADOS e decidiu se mudar.

Mal sabia eu a ironia do que estava por vir.

Capítulo 2 – A IRONIA DO QUE ESTAVA POR VIR

Nos mudamos. Apartamento novo, pessoas novas, vida nova, quarto novo e sem buraco na parede (eu olhei duas vezes pra ter certeza); tudo era bonito, tudo era novo, a gente aparentemente não tinha mais problemas. Um dia apareceu o vizinho de baixo na nossa porta por que o nosso banheiro estava com vazamento no piso e numa reviravolta alucionante na trama eu estava inundando a casa dos outros.


eu só queria tomar um banho em paz sem que tudo desse errado

Convenhamos que como dessa vez quem estava sofrendo eram os outros a gente se importou menos com o problema e se importou mais com a nossa vida, e quando o proprietário do nosso apartamento demorou pra vir resolver o problema a gente ficou tranquilo, por que não parecia ser tão preocupante. Até que o vizinho de baixo apareceu na porta de novo falando que POR FAVOR O BANHEIRO APODRECEU, OS FUNGOS NOS SUBJUGARAM TOMARAM NOSSA CASA, ALGUÉM PELO AMOR DE DEUS PENSE NAS CRIANÇAS.

A gente arrumou tudo logo depois mas já era tarde demais, por que eu acho que a nossa casa já tinha sido amaldiçoada e tudo começou a dar errado.

Capítulo 3 – TUDO COMEÇOU A DAR ERRADO

Um dia eu coloquei a roupa pra lavar e fui cuidar de minha vida. Daí a máquina começou com um barulho estranho, mas eu ignorei, por que eu não tenho tempo pra me importar com tudo que faz barulhos estranhos na minha vida. Horas depois eu fui perceber que a roupa ja deveria estar pronta, mas a máquina ainda tava funcionando, e nem no ciclo pesado essa lavadora batia tanto minha roupa, por que ela é uma maquinazinha ordinária de ruim. Eu tentei de tudo, tirei da tomada, olhei feio, dei uns tapa, mas depois tive que admitir que a máquina tinha estragado. O conserto saria quase o preço que eu paguei na máquina, então a gente tá há um bom tempo sem máquina lavando as coisas na mão. Mas isso não é chato o suficiente e, como se não bastasse, pouco tempo depois o chuveiro estragou também.

Nada contra banho frio, inclusive sou adepto, às vezes tomo um pra me sentir meio fitness e tal, mas tinham dias em que estava frio e eu não tinha opção se não entrar no banho e chorar, ou gritar desesperado pedindo pra que Deus me levasse de uma vez.

NYMPHOMANIAC-7
queria estar morta

No momento eu estou aproveitando pra ver o lado bom das coisas, eu troquei a resistência de um chuveiro pela primeira vez (e olha que eu tenho um diploma de Técnico em Eletrônica), a gente também vai comprar uma máquina nova agora; uma que seja boa e que limpe as roupas e não deixe elas cheias de manchas e plumas diferente de -C E R T A S- máquinas horrorosas. Também aproveitei o momento pra escrever uma carta pedindo desculpa pro vizinho de baixo e dar uma benzida com arruda na casa, por que prevenção nunca é demais.

Eu sei que tudo isso é parte da vida, ajuda a formar caráter etc mas eu realmente esperava que casas fossem menos caóticas; eu pago aluguel e condomínio todo mês sabe? Eu achava que isso fosse o suficiente pra manter ela de pé.

Ironicamente ou não eu ainda amo essa casa. Ainda falta uma pintura melhor e uns móveis do pinterest pra ser linda e decoradíssima como eu imaginava mas eu vejo potencial nesse apartamento pra ser a representação dos melhores anos da minha vida. Talvez seja a emoção de ter trocado a resistência do chuveiro, ou o chumbo da água subindo pra minha cabeça, mas enfim..