Todos os meus sonhos são feitos de pedra. (Parte 2)

Você não vê?

As flores são fracas, mas as raízes são fortes
E se estendem terra adentro como se quisessem tocar o abismo

Você não vê?

Não há mais nada aqui, e não há mais ninguém
Tudo que restou são blocos de concreto e vidro partido, lotes abandonados, rejeito industrial.
Em meio aos restos ficou a estrada.
Todos os lugares estão vazios, mas se você estiver com pressa ainda pode chegar lá, basta pegar a expressa.
Monóxido de carbono, gasolina, ácido de bateria.
Tudo que você tocou virou pedra e tudo que eu toquei virou pó.

Você não vê?

A carne é fraca, mas os dentes são fortes
E mordem através dos anos, quebram os ossos e perfuram a memória.
Não há mais vida aqui, mas você não vai embora, e continua caminhando por paisagens desoladas, muros de cimento, lâmpadas de tungstênio.
E todo dia você diz que vai ser diferente
Mas toda noite termina igual
E você evita olhar para o lado, para o abismo que te acompanha
Como um alcoólatra que evita o primeiro gole
Ou como uma criança que dorme com as luzes ligadas

Você não vê?

Por baixo de toda essa mentira ainda existe algo vivo
Algo que pulsa e ferve e chama seu nome.
Você se esqueceu quem você é?
Você se esqueceu por que está aqui?
Essas paisagens desoladas nos confundem e nos enganam, como se não houvesse nada além disso
Mas esses prédios estão vazios não faz muito tempo
E você chegou aqui não faz muito tempo.
E eu venho ateando fogo nas casas para lhe mostrar que ainda estou vivo.

Você não vê?

Ainda tem um pouco de gasolina no seu carro.
Venha me encontrar.
Eu estou esperando por você.


Sigo com meus experimentos em narrativa, e tô achando mais abstrato do que eu esperava; mas tô tentando não pensar muito e me deixar sentir, sem ter que me ater a trama, cronologia e só escrever esses capítulos que me vêm à mente, à medida que eles vêm..

Fui inspirado pela letra da música Slow Hands do Interpol, e pela estrutura desses poemas em prosa intermináveis, como o I Have a Very Special Plan for This World, do Thomas Ligotti ou o Howl, do Allen Ginsberg. Se alguém souber de alguma coisa assim de um artista brasileiro me manda por favor!!!! Até a próxima.

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